Desde julho deste ano, o IDEC vem solicitando à ANVS a proibição da venda de cisaprida. Depois de cinco meses, a Agência apenas requereu o uso de receituário especial (acessível a qualquer médico) e colocou o produto na lista de medicamentos controlados. Ou seja, a Agência continua autorizando a venda de cisaprida, protegendo assim a indústria farmacêutica.
A cisaprida é usada para tratar refluxo gastroesofágico, esofagite e gastroparesia, quadros que causam azia e dor.
Consumidor S.A. no. 51, alertou os leitores sobre o Prepulsid, que é o nome comercial da cisaprida mais conhecido por brasileiros. No ano de 1999 foram vendidas mais de 1,4 milhão de caixas só dessa marca, o que resultou em mais de US$ 14 milhões para os cofres do laboratório Janssen.
Embora a nova resolução da ANVS contra-indique o uso de cisaprida, é difícil mudar a prática médica, sujeita a todas as pressões e desinformações da indústria.
Os problemas causados pelo medicamento são bem conhecidos pelos especialistas. Incluem palpitações, taquicardias, desmaio, parada cardíaca e até morte. Desde 1992 são relatados casos de problemas cardíacos associados ao seu uso. Até dezembro de 1999, a FDA, Agência de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos, anunciou 341 casos de arritmia cardíaca, entre os quais 80 óbitos. No Canadá, até maio deste ano, havia 44 casos de arritmia, com 10 óbitos. Todos casos vinculados com o uso de cisaprida. Estima-se que as informações sobre reações adversas aos medicamentos à base de cisaprida mostrem apenas uma pequena parte do total de doença e de mortes.
Os problemas cardíacos ocorrem com maior freqüência quando o produto é utilizado com medicamentos contra micose, como cetoconazol, fluconazol, itraconazol e outros, ou com alguns tipos de antibióticos, como eritromicina ou claritromicina. Já foram descobertos problemas parecidos com alguns medicamentos usados contra AIDS.
Pessoas com doenças coronarianas, arritmias, distúrbios de eletrólitos ou distúrbios congênitos de condução cardíaca têm maior risco de sofrer efeitos graves.
Existem alternativas para tratamentos de doenças que não incluem a cisaprida, como mudanças de dieta e outros medicamentos, como cimetidina ou omeprazol. Assim, não há necessidade de manter a cisaprida no mercado. A falta de informação e de fiscalização são mais motivos para que a Vigilância Sanitária pare de liberar esses medicamentos e evite mortes desnecessárias.
O IDEC voltou neste mês a exigir que a ANVS proíba todos os medicamentos no país que contêm cisaprida e sua manipulação. A Agência não sabe ao certo o número de mortes devido ao uso do medicamento no Brasil. Assim, não se sabe quantos brasileiros mais terão que morrer para ensinar a ANVS que seu papel é proteger a saúde pública.