Nº32 Jul/98
anterior | sumário | próxima

 

 

 

 

RESUMO

- A aflatoxina é produzida por um fungo e pode, a longo prazo, atacar o fígado do homem.

- Cinco produtos testados registraram, num primeiro exame, níveis acima do limite do Mercosul.

- Legislação brasileira é mais tolerante que a norma do Mercosul.

- Para evitar consumir alimentos contaminados, veja a validade e prefira produtos industrializados.

- Torrar o amendoim não o livra da aflatoxina.

  Teste

AFLATOXINA NO AMENDOIM

Teste com quarenta produtos descobre sinais de substância tóxica em cinco deles, mas exames com novos lotes mostram um quadro de acordo com a legislação. Fica, porém, a dúvida da variação entre as concentrações encontradas.

A aflatoxina é, como o próprio nome dá a entender, uma substância tóxica que ataca o fígado dos animais. No homem, ela não provoca problemas de imediato, mas contribui, quando ingerida constantemente, para o câncer hepático. A aflatoxina chega ao organismo por intermédio dos alimentos, em especial as sementes oleaginosas, como o amendoim e o pistache. Por isso, o IDEC mandou examinar em laboratório quarenta produtos à base desses alimentos. Foram encontrados sinais de aflatoxina em muitos deles, especialmente em cinco, cujos níveis da substância eram mais altos que os limites estabelecidos no Mercosul. Porém, novos exames, com outros lotes dos produtos, encontraram índices menores de toxicidade, mais toleráveis.
Há vários tipos de aflatoxinas, todas produzidas pelos fungos Aspergillus flavus e Aspergillus parasiticus. O fungo é um microorganismo responsável, entre outros fenômenos, pelo mofo que surge nos alimentos estragados ou nos ambientes úmidos (nem todos os fungos são microscópicos ou nocivos; o cogumelo, por exemplo, é um fungo). O problema, no caso dos Aspergillus, é que eles liberam a aflatoxina sem alterar as características sensoriais dos alimentos – sabor, aspecto ou odor.

Da terra para as plantas e animais

O ambiente natural do Aspergillus é a terra. É aqui que ele contamina os alimentos. Além do amendoim, ele pode atacar também o algodão, o arroz, o sorgo, o milho, o cacau, a castanha-do-pará, a noz e a mandioca; e, como conseqüência, pode aparecer nos produtos industrializados derivados dessas matérias-primas, além de produtos cárneos curados.
Em plantas como o amendoim e o feijão, as aflatoxinas prejudicam a divisão celular, o que compromete o crescimento, e bloqueiam a síntese de clorofila, o que é fatal para o vegetal. Nos animais, as vítimas são, além dos perus e outras aves, cavalos, bois, cobras, cachorros, macacos, porcos, ratos e até alguns peixes. Os bichos sofrem hemorragias e alterações das funções nervosas, combinadas com espasmos e problemas de equilíbrio, o que leva à perda de apetite e de peso.

 Toxina entra pela boca e pelo nariz

No homem, intoxicações causadas porfungos – das quais as aflatoxinas são as mais comuns – são perigosas devido a seus efeitos crônicos, que não podem ser detectados em curto prazo. A aflatoxina afeta o fígado, os rins e o cérebro, além dos músculos em menor intensidade. Na África, por exemplo, em cada 100 mil bantos, catorze são acometidos de câncer hepático. A dieta desse povo está baseada no amendoim. Nos EUA, onde se consome muita pasta de amendoim, por exemplo, o índice de tumores no fígado já é de 1,7 para cada 100 mil habitantes.
Não é só pela ingestão que a aflatoxina entra no homem. Respirar poeira contaminada também é perigoso. Os trabalhadores que atuam na industrialização do amendoim ou no transporte de cereais estão sob um risco maior de desenvolver neoplasias causadas pelas aflatoxinas.
Para prevenir a contaminação por aflatoxinas em produtos industrializados, são necessários alguns cuidados básicos no processo de manufatura. O Aspergillus se desenvolve em ambientes úmidos, pouco ácidos, com oxigênio, à temperatura entre 20 e 30 graus Celsius, e produz aflatoxina sobretudo na escuridão. Só que a toxina resiste a grandes variações térmicas. Portanto, comprar amendoim já torrado ou torrá-lo em casa não livra o alimento de uma possível contaminação.

Nada nocivo, mas uma suspeita

O IDEC enviou quarenta produtos industrializados à base de amendoim ou pistache para avaliação em laboratório. As amostras de dois produtos (amendoim cru Yoki e paçoquinha Covizzi, da Mirassol) apresentaram nível de aflatoxina superior ao permitido pela legislação brasileira. Outros três (doce de amendoim Doll, Paçoquita, da Santa Helena, e bombom Serenata de Amor, da Garoto) passaram nesse critério, mas ainda tinham uma concentração de toxinas superior à estabelecida pelo Mercosul, cuja norma é bem mais rigorosa que a brasileira. Em seguida, o IDEC submeteu a novos exames outros lotes dos cinco produtos com problemas. Todos foram aprovados pela norma brasileiras e só um continuou fora do limite do Mercosul, a paçoquinha Covizzi.
Os técnicos do IDEC consideram que os problemas encontrados não tornam os produtos nocivos para consumo, mas fica uma suspeita ao final: será que o controle de qualidade dos fabricantes é eficaz e constante? O amendoim cru da Yoki apresentou, no primeiro exame, uma concentração de 153,6 ppb (partes por bilhão) de aflatoxinas (o limite brasileiro é de 30 ppb); já no segundo lote, o índice encontrado foi de praticamente zero (menos de 1,5 ppb) – uma variação de cem vezes!
Sabe-se que, até alguns anos atrás, os fabricantes podiam pagar dois níveis de preços pelo amendoim para industrializá-lo; o mais baixo era para o alimento contaminado... Algumas empresas informaram ao IDEC que, como este ano houve mais chuvas que o normal na região de Marília (SP), a maior produtora de amendoim do país, o alimento apresentou maiores níveis de contaminação por aflatoxina. Pode ser, mas o fato não serve como desculpa. Existe tecnologia para acabar com as aflatoxinas durante o processamento. A questão é saber se esses métodos de saneamento são aplicados – e se são fiscalizados pelos órgãos competentes, como a Vigilância Sanitária.

O teste de aflatoxina está publicado na íntegra na versão impressão da revista Consumidor S.A., nº31, junho de 1998.
Receba a revista em sua casa, fazendo uma assinatura ou associando-se ao IDEC.

Fique tranqüilo, mas tome cuidado

Considerando os resultados do teste e uma realidade cultural, a de que o amendoim não faz parte da base alimentar do brasileiro, não há problemas em consumir os produtos avaliados. Para o homem, a aflatoxina só causa problemas a longo prazo, quando ingerida freqüentemente. Porém, até para evitar outros problemas, o consumidor deve sempre tomar certos cuidados: verificar se o produto tem uma embalagem que o protege da umidade e se está dentro do prazo de validade. No caso das sementes oleaginosas (amendoim e pistache) e dos frutos secos (figos e passas), é preferível sempre adquirir o alimento mais fresco, distante da data do vencimento.

anterior | sumário | próxima