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  15 de Junho de 2009  
  Madeira da Amazônia alimenta cadeias de vendas de pisos e móveis no exterior    
       
  Levantamento jornalístico de organização não-governamental mostra o esquema milionário de retirada ilegal de madeira amazônica e o envolvimento de empresas brasileiras e estrangeiras

Uma reportagem publicada na 15ª edição de Observatório Social em Revista revela um esquema milionário de retirada ilegal de madeira da floresta Amazônica envolvendo funcionários públicos corruptos e grandes empresas de exportação.

A madeira é comercializada nas maiores cadeias de vendas de pisos e móveis nos Estados Unidos, Europa, Ásia e Oceania, muitas delas detentoras de selos de certificação de madeira. O esquema envolve empresas brasileiras e internacionais.

Realizada pelo Observatório Social, pela ONG Repórter Brasil e pelo Papel Social Comunicação, a pesquisa levou nove meses para ser concluída e aponta que 70% de toda a madeira comercializada no estado do Pará, maior vendedor de madeira amazônica no Brasil, tem origem ilegal.

Essa madeira é "esquentada" dentro de órgãos do governo. Autoridades do MPF (Ministério Público Federal) e do Ibama confirmam o esquema e apontam o envolvimento da Secretaria Estadual do Meio Ambiente que opera em parceria com madeireiras e empresas de exportação.

No final do caminho estão gigantes do setor de madeira e construção civil no exterior.
Todas as empresas aqui citadas aparecem em documentos que comprovam o problema. Apesar de a maioria não ter envolvimento direto, com exceção das citadas, elas são corresponsáveis por comprarem a madeira de empresas envolvidas, estão financiando o círculo vicioso. Elas não têm mecanismos minimamente eficientes para monitorar suas cadeias produtivas.

Rota da madeira

De acordo com o MPF e o Ibama, o mercado de madeira amazônica é movido por um mercado paralelo - o de créditos de madeira. A descoberta do esquema leva à constatação de que o Pará é o segundo estado brasileiro que mais compra madeira, atrás apenas de São Paulo. O comércio, porém, não chega a ser consumado. O único produto que viaja é o papel que registra o crédito e que permite o "esquentamento" de milhares de metros cúbicos provenientes de terras indígenas, áreas de preservação permanente e demais regiões onde a exploração comercial é proibida.

Empresas de fachada são montadas com facilidade para "esquentar" madeiras de origem ilegal. Lojas de autopeças, oficinas mecânicas, residências e terrenos baldios são utilizados no esquema. Em apenas um mês, entre fevereiro e março de 2009, a operação Caça Fantasmas, realizada por Ibama, Sema e Ministério Público, bloqueou mais de 100 dessas empresas em Belém e na região metropolitana.

As multas aplicadas na operação somavam, até o primeiro trimestre do ano, mais de R$ 100 milhões, enquanto a movimentação feita por essas empresas em 2008 ultrapassava R$ 250 milhões.

A corrupção de funcionários de órgãos de fiscalização permite que os dados sobre as áreas de exploração sejam alterados. Surgem declarações sobre madeireiros que não existem, espécies são substituídas e o volume de floresta real é aumentado. Aparecem créditos virtuais, que autorizam legalmente às empresas a derrubar um número maior que o permitido.

A madeira é retirada de lugares diferentes dos declarados, principalmente de áreas de preservação permanente, áreas embargadas e reservas indígenas. Caso não aconteça flagrante no momento e no local de corte, as empresas declaram que retiraram madeira dos locais onde possuem créditos.

Uma empresa compra um carregamento de madeira de outra, mas a única mercadoria entregue é o documento, onde estão definidos os valores, a quantidade e as espécies em trânsito. Caminhões carregados de madeira de outra origem transitam com um papel que garante a aparente legalidade da operação.

De toda a madeira retirada no Pará, estima-se que 10% fique no Brasil. Estados Unidos e União Européia são os grandes compradores de madeira amazônica e a China vem ganhando destaque.

Empresas envolvidas

Empresas como Madeball (que teve R$ 1,5 milhão em multas nos últimos anos), Comabil (acusada de crimes ambientais, trabalho escravo, retirada de madeira de terra indígena e invasão de terra pública) e Rio Pardo Madeiras (que opera com madeira oriunda de desmatamento) estão na base da cadeia. Já as empresas Vitória Régia Exportações, Pampa Exportações e Interwood Brasil atuam como elo de ligação comercial.

Entre as compradoras de madeira brasileira estão a Bois Aise of Montreal (canadense que atua nos EUA e possui escritório na China), J Gibson Mcllvain Company (norte-americana com vendas anuais entre US$ 25 milhões e US$ 50 milhões, Great Atlantic International (norte-americana com vendas anuais estimadas em US$ 100 milhões), Aljoma Lumber Inc. (trabalha com importação e exportação de madeira nos EUA), Robinson Lumber Company (que vende produtos de madeira para mais de 70 países) e Moxon Timber (que atua nos EUA, Ásia, América Latina e Nova Zelândia), Brasilian Wood Depot (norte-americana que trabalha há mais de três décadas importando e distribuindo madeira brasileira), Appalachian Flooring (canadense que comercializa madeira nos EUA e Canadá e possui produção anual de US$ 20 milhões em pisos), BRBR (principal representante da exportadora Vitória Régia no Reino Unido), Advantage Trim & Lumber Co (norte-americana que importa só de países em desenvolvimento), TW Wood Products (tem a África e a América do Sul como principais fornecedores de matéria-prima para pisos e produtos manufaturados).

No fim da cadeia estão empresas como Lumber Liquidators (que possui 140 lojas nos Estados Unidos e fornece para o famoso programa Extreme Makeover, também veiculado na TV paga brasileira), Brico Dépôrt (US$ 13,5 bilhões de faturamento e um dos líderes do mercado de construção "faça você mesmo" no Reino Unido, Itália, Polônia, Turquia e China), DLH Nordisk (grupo dinamarquês de transporte marítimo e de madeira), Nova USA Wood Products (norte-americana especializada em importação direta de madeira brasileira), Thompson Mahogany Company (norte-americana que concentra compra de madeira na América do Sul, América Central, África e Austrália), Redwood Empire (engloba a Pacific States e distribui madeira para todas as regiões dos EUA) e Cecco Trading (divisão do grupo Timber Holdings que está entre os maiores compradores de ipê brasileiro).

As empresas procuradas pela equipe da ONG negaram as irregularidades ou não quiseram se pronunciar sobre o assunto. Confira os argumentos de cada uma e a íntegra da reportagem feita a partir da pesquisa.

A reportagem também mostra como funciona o mercado interno ligado à destruição da Amazônia, revelando quais empresas dos setores de madeira, carne e grãos tem vinculação ou estão implicadas na compra de produtos oriundos de empresas com problemas ambientais ou envolvidas em trabalho escravo. Dentre as organizações, gigantes como Tramontina, ADM, Marfrig, Quatro Marcos e Metalsider.
   
     
     
           
 
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