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Boa
tarde, gostaria de informações a respeito
de um tratamento.
Tratamento? Não, aqui só fazemos cirurgias
plásticas.
É isso mesmo. Gostaria de saber o preço
da lipoescultura.
Ah, 3 mil reais.
Vocês parcelam esse valor?
Em até dez vezes.
Se eu quiser fazer, qual é o procedimento?
Você terá que passar por uma consulta que
custa R$ 80,00. Mais alguma informação?
Os médicos são especialistas?
Todos. (silêncio acerca de mais detalhes da qualificação)
Só mais uma dúvida, por favor. As cirurgias
serão feitas em que hospital?
Aqui na clínica mesmo.
Obrigada.
De nada. Boa tarde!
Este diálogo é a reprodução
fiel de uma ligação para uma clínica
de cirurgia plástica. O telefone do estabelecimento
foi obtido sem nenhuma dificuldade na seção
de anúncios da revista Boa Forma, da editora
Abril. Cinco minutos depois, ligamos novamente para
a clínica perguntando o preço do botox,
um produto químico injetado na pele para eliminar
rugas, e a mesma atendente respondeu: R$ 1.600,00, em
duas vezes. Sim, hoje em dia é possível
saber o preço de uma cirurgia plástica
por telefone, assim como conseguimos obter o valor de
um curso, de um produto ou de uma assinatura de revista,
jornal ou TV a cabo.
A diferença é que esses últimos
não trazem malefícios à saúde,
enquanto toda operação plástica
tem seus riscos. "Não existe procedimento
cirúrgico isento de risco, e a plástica
não foge à regra. As pessoas devem ter
consciência disso antes de iniciar qualquer tratamento.
Imagine uma pessoa sadia se submeter a uma anestesia,
por exemplo, e ter algum tipo de problema", avisa
o presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado
de São Paulo (Cremesp), Clóvis Francisco
Constantino.
Cirurgias malsucedidas podem resultar em deformidades,
trazer sérias conseqüências emocionais
e levar até a morte, segundo adverte o livro
Bonito é ser você (Editora Gente), do cirurgião
plástico Rolando Zani. Em seus 37 anos de profissão,
Zani acrescenta que tem observado cada vez mais a banalização
da medicina da beleza. "A busca de um ideal estético
ilusório atingiu tal exagero que qualquer "pneuzinho"
ou "pé-de-galinha" já é
motivo para uma corrida, até irresponsável,
rumo a uma mesa de cirurgia. Existe um marketing violento
por trás disso. E profissionais que querem ganhar
dinheiro rápido e fácil", constata
o cirurgião.
Antes de se submeter a qualquer tratamento, os pacientes
devem se informar à exaustão sobre os
riscos da cirurgia, como será o pós-operatório,
se ficarão com seqüelas e, principalmente,
se vão conseguir obter o resultado que esperam
com o tratamento. Há muitos mitos envolvendo
a plástica, na grande maioria reforçados
por revistas especializadas que "vendem" as
cirurgias como um procedimento simples e a melhor opção
para alcançar o ideal da perfeição,
tão almejado nos nossos tempos (saiba mais nas
páginas 26 e 27).
"A lipoaspiração, por exemplo, não
funciona como método de emagrecimento, mas muitas
pacientes ainda pensam que podem ficar com um corpo
de garotinha. Setenta por cento das pessoas que já
fizeram uma lipoaspiração declararam esperar
mais dos seus resultados", conta Rolando Zani.
Os pacientes devem ter noção de que milagres
não são possíveis no ramo da operação
plástica. Pelo contrário, a plástica
tem mais limites do que indicações. Estima-se
que 20% das cirurgias estéticas realizadas no
Brasil sejam desnecessárias. De acordo com Zani,
tais operações não são indicadas,
por exemplo, para pessoas que estão mais de 20%
acima do seu peso ideal. Nesses casos, antes de fazer
a cirurgia é recomendável emagrecer.
Operação não funciona sem
auto-estima
O fator emocional é outro item importante na
hora de decidir ou não por uma cirurgia plástica.
Para o sociólogo Francisco Romão, que
atualmente pesquisa o assunto para sua tese de doutorado
em Saúde Pública, as pessoas geralmente
elegem uma parte de seu corpo como a culpada por sua
infelicidade. "Mas não é a plástica
que vai resolver essa questão. Pior ainda, se
for malsucedida, pode ocasionar outros problemas emocionais
gravíssimos, como não-aceitação
ou até depressão", lembra.
Para o cirurgião plástico Rolando Zani,
a cirurgia só funciona se vier acompanhada do
aumento da auto-estima. Em seu livro, ele orienta: "Quem
procura a auto-estima em valores externos não
atinge seu objetivo. Por isso, muitos ficam frustrados
com os efeitos de mudanças obtidas após
meses de malhação ou de um regime alimentar
rigoroso ou ainda depois de uma plástica bem
realizada".
Zani também declara-se contra os exageros feitos
em nome da beleza. O médico alega que costuma
selecionar pacientes em sua clínica e que recusar
faz parte da sua profissão, principalmente nos
casos de lipoaspiração, aumento desnecessário
de mamas e redução do abdome.
"Não aceito fazer o tratamento quando percebo
que fisicamente o resultado não será positivo
ou se a pessoa está emocionalmente abalada, com
forte tendência à depressão. Muitas
vezes eu até indico um terapeuta", conta
ele.
O cirurgião plástico e secretário-geral
nacional da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
(SBCP), Osvaldo Saldanha, também acha que os
excessos devem ser coibidos pelos próprios médicos.
Para ele, se o cirurgião perceber que a operação
não trará melhora alguma ou apenas uma
pequena modificação, deve recusar o paciente.
Exageros ocasionam doenças
Além do risco de se submeter a cirurgias que
podem trazer resultados insatisfatórios, Romão
também adverte para o crescimento de doenças
ligadas à busca do corpo perfeito.
Exemplos não faltam, como anorexia, que consiste
na recusa em comer para evitar o ganho de peso; bulimia,
em que o paciente recorre ao uso de laxantes ou ao vômito
para compensar uma alimentação compulsiva;
e a vigorexia, mais comum entre homens, relacionada
à obsessão pela força física
e ao uso de anabolizantes.
A própria obsessão sem limites pelo corpo
já é um sintoma de uma doença chamada
dismorfia corporal. Trata-se de um distúrbio
psicológico cujas vítimas não conseguem
aceitar seu próprio corpo, e mesmo uma pequena
imperfeição pode ser encarada como uma
enorme deformidade. A doença é grave e
pode levar à depressão e até ao
suicídio.
No caso da cirurgia plástica, grande parte das
ameaças que rondam o tratamento poderia ser evitada.
Segundo depoimento de Zani, que hoje faz operações
plásticas durante três horas, diariamente,
70% dos casos de lipoaspiração, cirurgia
de redução do abdome ou das mamas poderiam
ser resolvidos com hábitos de vida mais saudáveis.
"O ideal é que as pessoas aprendam a se
cuidar antecipamente, ou seja, pratiquem exercícios
físicos regularmente e tenham uma alimentação
equilibrada", recomenda o cirurgião.
O Conselho Regional de Medicina do Estado de São
Paulo (Cremesp), órgão que apura denúncias
na relação médico-paciente, recebeu,
nos últimos três anos, 386 denúncias
envolvendo as cirurgias plásticas.
Somente em 2003, foram registradas 71 ocorrências
nessa área. Desse total, 45 denúncias
foram relativas a negligência, imperícia
ou imprudência, o que pode ou não caracterizar
erro médico após a apuração
dos casos.
Adolescentes entram no jogo da beleza
Seduzidos pela indústria da beleza e pela mídia,
os jovens aderem cada vez mais às cirurgias plásticas.
Estimativas da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
revelam que, do total de operações realizadas
no Brasil até 1998, 7% foram feitas por adolescentes.
Essa porcentagem subiu para 15% em 2003.
A estudante de jornalismo Débora Lima Caramico,
de 20 anos, engrossa as estatísticas. Ela aproveitou
a cirurgia de desvio de septo para fazer uma operação
estética no nariz. "Desde os 13 anos de
idade, eu me incomodava com o formato do meu nariz.
Achava que qualquer problema de relacionamento que eu
tivesse era por causa disso: desde não ser bem-sucedida
numa paquera até o término de um namoro",
conta.
Ela assume que fez a cirurgia de septo por motivos estéticos.
E, apesar de ter se informado bem e alegar que o médico
detalhou com clareza todos os procedimentos da operação,
Débora também confessa que se assustou
muito depois de ter tirado o gesso e o microporo que
cobriam o nariz recém-operado. "Ainda estava
muito inchado, fiquei desesperada. Ninguém deve
fazer cirurgia plástica pensando que vai ficar
bom de um dia para o outro", aconselha.
Hoje, passados mais de 15 dias da cirurgia, a estudante
afirma que o nariz ficou exatamente como ela queria.
O sociólogo Francisco Romão reforça
o depoimento de Débora: "Muitos jovens pensam
que podem fazer uma plástica na segunda-feira
para ficar bonitos numa festa que acontecerá
no próximo sábado".
Para Romão, a cirurgia plástica é
um procedimento na medida para esta geração
mais narcisista, hedonista e que busca o prazer sem
esforço nenhum. O jovem não pode esquecer
que o mercado da beleza é regido pela moda e,
assim como qualquer outro setor da nossa sociedade de
consumo, vive do lançamento de novos produtos
e tendências. "Hoje a moda são glúteos
e seios fartos, amanhã poderá ser seios
e bumbum pequenos", adverte o sociólogo.
Pesar os prós e os contras, avaliar a decisão
com calma e a real necessidade da operação,
além de não se deixar influenciar pela
mídia, são atitudes aconselháveis.
Os exageros também devem ser evitados. Segundo
Romão, a noção de saúde
está cada vez mais se misturando com a de estética:
"Ser saudável significa hoje em dia ser
bonito, sarado. As pessoas vêem o corpo como uma
máquina que pode ser transformada ao bel-prazer
de cada um. Essa preocupação com a pseudo-saúde
está gerando deformações. O que
é saudável não se restringe mais
necessariamente à saúde", conclui.
Ainda falta muita informação
Segundo dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica
(SBCP) são realizadas 400 mil plásticas
por ano no Brasil. O país só perde para
os Estados Unidos, o líder no ranking em número
de cirurgias. O secretário-geral nacional da
SBCP, Osvaldo Saldanha, assegura que a dimensão
desse mercado ainda será alvo de uma pesquisa
mais detalhada. Mas estima-se que o setor apresente
crescimento de 20% a 30% por ano. Só as operações
para aumento de mama tiveram crescimento de 500% nos
últimos cinco anos, ainda de acordo com a SBCP.
A plástica é um filão de mercado
sem dúvida. Conseqüentemente, novos produtos
entram em cena para sustentar o mercado em ascensão:
revistas especializadas, publicidade dirigida, consórcios,
planos de cirurgias plásticas. Tudo para seduzir
o consumidor.
A informação, que poderia ser uma arma
eficaz contra problemas, muitas vezes é subestimada.
Revistas especializadas, como Plástica &
Beleza, tratam da metamorfose corporal como se fosse
a coisa mais simples do mundo. Fazem uma verdadeira
apologia à plástica: não lembram
que há um pós-operatório, seqüelas
físicas, hematomas e ainda que existe a possibilidade
de a plástica não funcionar.
Atores e outros famosos emprestam suas imagens a revistas,
como a Plástica & Beleza ou até a
publicações semanais com grande tiragem,
em depoimentos que relatam "maravilhas" da
cirurgia plástica. Sem contar as falsas promessas
vendidas por alguns anúncios.
Medicina não é comércio
Esse processo respalda o que vem sendo chamado mercantilização
da medicina. Clóvis Constantino, do Cremesp,
adverte que a medicina não é um comércio.
Tanto Constantino como Osvaldo Saldanha, da SBCP, são
contra os abusos na publicidade e os consórcios.
Saldanha esclarece que os últimos não
são regulamentados por lei nem autorizados pelo
Conselho Federal de Medicina. "Lidamos com seres
humanos, e a relação médico-paciente
deve ser preservada", enfatiza o secretário-geral.
Ambos informam que a publicidade só é
permitida se tiver caráter informativo. Segundo
as normas do Cremesp, são consideradas antiéticas
divulgações de formas de pagamento, autopromoção
pessoal, com fotos de antes e depois. No entanto, tais
anúncios são facilmente encontrados tanto
em matérias pretensamente jornalísticas
como em peças publicitárias, principalmente
em revistas especializadas e de fitness.
Para Constantino, as pessoas não devem se deixar
influenciar por um outdoor, por uma revista ou por uma
promessa impossível. O marketing agressivo, porém,
parece não ter limites. A nova novela da rede
Record, Metamorphoses, traz uma personagem que se submeteu
a duas cirurgias (da mama e do nariz), tudo gravado
e exibido em circuito nacional.
Sem informação, a popularização
das operações plásticas aumenta
a potencialidade de riscos. Até a década
de 80, tais cirurgias eram um privilégio da elite.
Graças aos planos especiais que permitem o parcelamento
do pagamento e aos sorteios de cirurgias gratuitas,
tanto em programas de televisão como em revistas
dedicadas ao tema, o "sonho" de ter um corpo
ou rosto perfeito ficou mais acessível para a
população de baixo poder aquisito.
Como manda a lei de mercado, o aumento da concorrência
no setor também proporcionou uma queda no custo
do tratamento. Mas atenção: preços
muito baixos são um sinal de alerta, aconselha
Saldanha, da SBCP. Não são raros os casos
como o da faxineira Maria Aparecida de Oliveira, de
42 anos, que morreu 24 horas depois de submeter-se a
uma cirurgia de redução de mama. Ela iria
pagar R$ 1.400,00 pela operação, menos
da metade do preço médio.
Na contramão dessa tendência, uma boa notícia
é a resolução do Conselho Federal
de Medicina, de dezembro de 2003. A nova norma traça
os parâmetros de segurança que devem ser
observados nas cirurgias de lipoaspiração.
Entre as principais determinações, na
opinião de Saldanha, está a que considera
a lipo como de domínio da cirurgia plástica
(antes, todo médico estava habilitado a fazer
a operação). A resolução
também estabelece que a lipoaspiração
não deve ter indicação para emagrecimento
e fixa os porcentuais de volume e de área corpórea
que podem ser aspirados.
No geral, o cirurgião plástico Rolando
Zani concorda que falta informação, e
o paciente acaba por ficar refém do que diz o
profissional. O consumidor costuma ser bem mais respaldado
na hora de comprar um produto, um liquidificador, por
exemplo. Na medicina, ele acaba confiando muito no médico,
mas ainda é preciso informar melhor os pacientes.
Denúncias
Denúncias de cirurgias malsucedidas ou comportamento
inadequado de profissionais da área médica
podem ser endereçadas ao Cremesp, em São
Paulo, pelo telefone (11) 3017-9300. Em outros estados,
acesse o site (http://www.cremesp. org.br) e procure
pelo link "delegacias regionais" (clique em
"institucional"). No caso de erro médico,
só é viável entrar na Justiça
se o equívoco provocado pelo médico causar
dano, como seqüela, morte ou danos morais. Também
é preciso provar que os danos foram causados
por negligência, imperícia ou imprudência
do médico.
Cuidados antes da operação (retranca)
Algumas dicas podem ajudar a evitar problemas:
- Escolha um cirurgião capacitado
Peça indicações com amigos e conhecidos
que já realizaram o mesmo tipo de cirurgia e
com médicos de confiança. A Sociedade
Brasileira de Cirurgia Plástica (http:// www.cirurgiaplastica.org.br)
também pode ser uma base para consulta, pois
conta com uma lista que reúne 3.300 especialistas
em cirurgia plástica. Procure saber se o médico
indicado é membro da SBCP.
- Avalie o hospital
É importante informar-se sobre a idoneidade do
hospital ou da clínica que fará a operação.
O estabelecimento deve ter alvará de funcionamento
em dia e ser bem equipado para responder a emergências.
- Esclareça suas dúvidas
Na primeira consulta, o médico deverá
responder todas as suas indagações numa
linguagem compreensível. Pergunte onde vão
ficar as cicatrizes; quais os riscos; como será
o pós-operatório, se ficarão hematomas
e por quanto tempo; se é possível alcançar
os seus objetivos e desejos; quais as possíveis
intercorrências e complicações.
- Faça uma auto-análise
Analise a viabilidade dos seus desejos (nem tudo é
possível com uma simples operação)
e avalie sua saúde física e psicológica.
Observe ainda se você terá condições
de cumprir o repouso e os cuidados pós-operatórios
recomendados.
Fonte: Cremesp e Rolando Zani
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