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Considerado
o maior especialista brasileiro em sua área,
Celso Antônio Bandeira de Mello é livre-docente
em Direito Administrativo e Ciência da Administração.
Professor titular da Faculdade Paulista de Direito da
PUC-SP desde 1974, sua atuação revela,
principalmente, o perfil de um grande defensor da democracia.
Nesta entrevista, ele defende o controle social dos
poderes do Estado.
Revista do Idec: O modelo de agências
reguladoras supõe mediação de interesses
entre Estado, mercado e sociedade civil, com espaços
onde as empresas, consumidores e interessados possam
participar de conselhos e consultas públicas.
Mas a sociedade civil tem dificuldade de se organizar
para demandar e influir em temas complexos. Como essa
lacuna de controle social pode ser diminuída?
Bandeira de Mello: Um dos maiores constitucionalistas
da Itália dizia que a prática da democracia
supõe um mínimo de consciência política.
Que é na verdade a consciência da cidadania.
Eu estou convencido de que não existe consciência
de cidadania. O povão, que não tem condições
sequer para sobreviver, como terá essa consciência?
A classe média e as classes economicamente privilegiadas,
da mesma maneira, não têm. Antes do golpe
militar de 1964, o presidente da República não
tinha poder de iniciativa para reformar a Constituição.
Então, era obrigado a governar com a Constituição.
A partir do momento em que tiveram o poder de iniciativa,
nunca mais um presidente da República quis governar
com a Constituição. Ele quis fazer, ele
mesmo, a sua própria Constituição,
quando as Constituições apareceram no
mundo exatamente para conter os governantes!
É um contra-senso, mas eu não vejo ninguém
dizer isso, prova de que não existe consciência
de cidadania, nem sequer a consciência do que
é uma Constituição. Então,
qual a solução? A meu ver, seriam instituições
como o Idec, isto é, aquele grupo muito pequeno,
mínimo, que tem consciência de cidadania
e se organiza e procura fazer respeitar os interesses
da cidadania. A solução são essas
arregimentações, e talvez elas extrapolarem
com o tempo a sua finalidade específica, se associarem
com outras, para apanhar um leque maior, fazer aquilo
que o Fabio Konder Comparato sugeriu: um consórcio
de organizações não-governamentais
dedicadas ao controle social.
Revista do Idec: O professor Comparato,
inclusive, inicia um artigo de grande repercussão
falando de uma conversa com o senhor, sobre a conjuntura
e a desilusão em relação ao atual
governo. Ele apresenta um Programa de Ação
que contempla, entre outros, a criação
dessa espécie de consórcio de âmbito
nacional, reunindo ONGs com o objetivo de controlar
a atuação dos agentes públicos,
em qualquer órgão do Estado. O que está
em causa, ele diz, é saber se somos capazes de
criar um sistema de controle popular do funcionamento
dos órgãos estatais.
Bandeira de Mello: Sim, estávamos
muito chateados. Não somos mais crianças,
passamos nossas vidas sem ver as coisas melhorarem.
Quando imaginávamos que iria melhorar, não
melhorou absolutamente nada. Então, como o Fabio
é um homem muito criativo, ele teve essa idéia
muito boa. Uma associação de ONGs nas
quais eu colocaria aí a defesa do consumidor,
a defesa do meio ambiente, a Anistia Internacional.
Acho que são as entidades que têm demonstrado
preocupação com os verdadeiros interesses
da sociedade. Então, depois de ler o artigo,
liguei para o Fabio e disse que talvez fosse preciso
uma mudança legislativa, uma mudança na
Constituição, para que essas entidades
ou essa confederação tivesse legitimidade
ativa para propor certas ações de defesa
da cidadania. E ele respondeu: "A minha experiência
é que isso tem de vir delas. Essas entidades
devem dizer o que acham viável e desejável."
Revista do Idec: E isso tudo vem,
a partir dessa conversa que vocês tiveram, por
estarem, como muitos cidadãos brasileiros, desesperançados
com o estado de coisas. A verdade é que o sistema
político-partidário parece estar falido.
Bandeira de Mello: Absolutamente falido.
A democracia no Brasil é uma falácia.
Nós fingimos que existe. A representação
partidária é outro jogo de faz-de-conta.
Os parlamentares não são representantes
do povo, portanto, é outra falácia. Não
é difícil identificar o porquê.
O processo eleitoral é absolutamente viciado.
Se eu, para ser eleito, dependo de uma soma de dinheiro
muito grande, isso significa que vou me comprometer,
de antemão, com grupos empresariais em geral.
Vou me tornar um representante de alguns segmentos que
me dão apoio, nunca daqueles que não têm
dinheiro para me eleger, que é o povo.
Então é um sistema completamente errado.
Ou existe um financiamento da campanha eleitoral feita
pelo próprio Estado ou então pode esquecer
essa idéia de representação. Mas
quem vai querer mudar isso? Pedir para quem está
usando o sistema em seu proveito, que mude para o proveito
alheio, ele não quer. Por isso eu acho que a
idéia do Fabio é o ovo de Colombo. Ou
aqueles poucos núcleos da sociedade que revelam
consciência de cidadania se articulam ou vamos
continuar assim por um processo histórico muito
longo.
Revista do Idec: O que pode interferir
nesse processo?
Bandeira de Mello: A educação.
Há muitos anos, fui vice-reitor da PUC-SP. Eu
me lembro de ter discutido com um assessor sobre como
mudar este país. Foi um período em que
tudo estava muito ruim, golpe militar... Então,
as pessoas imaginavam que talvez uma revolução
pudesse produzir algum efeito. E ele me disse: eu não
acredito na revolução, só acredito
na educação. Eu meditei nisso e pensei:
de fato, o que uma revolução faz? É
uma coisa muito violenta, de emoções,
que vem na hora. E depois volta tudo para trás.
Não pode não voltar, porque não
há nada internalizado, é uma explosão.
Já a educação é um processo
lento, mas incorpora, internaliza. Entretanto, leva
uma geração pelo menos, são 25
anos. Só que hoje temos que conceber o processo
de educar como algo muito distinto de antigamente, que
era família e escola. No mínimo, não
sei em qual proporção, ambas partilham
esse encargo com a chamada mídia.
Revista do Idec: E o que a mídia
está fazendo pela educação?
Bandeira de Mello: A mídia é
absolutamente destrutiva. Estou firmemente convencido
de que boa parte dos males que enfrentamos se deve ao
maior malefício do século, que é
a TV. Pode ser um instrumento muito bom, mas atualmente
é para o mal. Destruiu os valores morais, a ética
em todos os sentidos, substituiu pela lógica
do lucro, do afago, do que agrada imediatamente. Eu
outro dia em poucos minutos, com o controle remoto,
passei por alguns filmes cujo nível de violência
era estarrecedor. Num deles, uma criança escondida
num móvel fechado, vendo a mãe ser estuprada
e o pai amarrado e desesperado. No outro, um indivíduo
sendo torturado e, no outro, um morticínio. Como
é possível você ser criado nesse
ambiente sem que isso se incorpore ao seu cotidiano,
e você encare com certa normalidade toda essa
violência? Então, quando falo em educação,
falaria num controle muito intenso na TV. Ou se obedece
a Constituição e se faz licitação
da televisão. No Brasil se licita para comprar
papel higiênico e não se licitam os canais
de televisão...
Revista do Idec: O que o senhor pensa
da publicidade?
Bandeira de Mello: A publicidade é,
digamos, uma secreção natural do capitalismo.
A livre iniciativa luta para ganhar cada vez mais. Para
isso, ela tem de vender seu produto. Não importa
se é ou não uma porcaria, é preciso
convencer o consumidor a comprar. A publicidade é
para isso. Então é claro que a publicidade
comercial não pode ser uma coisa boa. Pode ser
bem-feita, atraente, interessante, mas...
Revista do Idec: Em Paris está nascendo um movimento
muito interessante, a antipublicidade, que intervém
sobre as propagandas (leia Consumidor S.A. 75). Eles
se comunicam muito via internet.
Bandeira de Mello: Pois eu vi algo
assim aqui em Santa Catarina. A internet é uma
coisa muito boa. Quem tem todos os espaços bloqueados
para se comunicar - porque a mídia domina tudo
- tem esse espaço na internet. Agora, esse poder
da mídia é uma cortina de ferro. Aliás,
no mundo foi uma desgraça o fim da URSS. Isso
permitiu que fosse inventada a palavra globalização,
que na verdade é uma gigantesca campanha de marketing.
Usando os meios mais sofisticados de comunicação,
é um cavalo de Tróia no bojo do qual vem
o produto a ser vendido, o neoliberalismo. Abertura
dos mercados, exatamente para efeito de se capturar
todo o mercado que sobrou, e principalmente aquele mercado
cativo, que era o de serviços públicos.
E que eles queriam e tomaram. Eu penso que somos contemporâneos
de um período terrível no qual desapareceu
a bipolaridade e permitiu-se a dominação
de um país muito medíocre, os Estados
Unidos. E a gente pode olhar para a história
e verificar como eles reproduzem os traços dos
povos primitivos: a arrogância, a idéia
de que fora do seu mundo o resto é inferior.
E o fim da bipolaridade EUA/ URSS permitiu que essa
propaganda pudesse dominar o mundo de maneira avassaladora.
Eu acho que tem de ter controle.
Revista do Idec: Essa idéia
do controle social tem ressonância em outros países?
Bandeira de Mello: Tenho a impressão
de que é generalizada. Na França houve
encontros em que rejeitaram os partidos políticos,
inclusive os de esquerda. Há alguns meses estive
lá, vendo um desses encontros numa cidade do
interior, mas como uma pujança que os jornais
não puderam deixar de registrar. Isso mostra
que as pessoas estão muito insatisfeitas com
as vias institucionais existentes para representá-las.
O estado de direto, a consagrada democracia, foi resultado
de duas linhas de pensamento. De Montesquieu, a idéia
de partir para deter o poder. De Rousseau, o pensamento
da democracia, todos nascem iguais e livres etc.
A idéia do contrato social. O estado de direito
é de ontem, século XIX. Esse modelo adotado
foi um dos primeiros grandes passos na história
da humanidade, porque até aí vínhamos
com os impérios e seus poderes, os reis...
O segundo grande passo, acho que temos do ponto de vista
da consagração constitucional em 1917,
com a constituição mexicana, a primeira
a colocar a questão dos direitos sociais. Depois
veio a de Weimar, em 1919. E passamos para essa nova
etapa, a do estado social de direito, do bem-estar etc.
Num período histórico relativamente curto
foi percebido também que as vias institucionais
não conseguiam realizar satisfatoriamente seus
objetivos.
Hoje, tenho a impressão de que o controle por
meio das organizações sociais espontâneas
é talvez a fórmula. Seria preciso, como
próxima etapa, imagino, assim como foram constitucionalizados
os direitos sociais, constitucionalizar a participação
do controle social. Para que ele funcionasse como meio
de deter esse ilimitado poder dos políticos a
partir da eleição.
Revista do Idec: O senhor disse que
o homem é capaz de diversos apetites. Um apetite
insaciável é o do consumo, que está
causando a devastação do meio ambiente.
Bandeira de Mello: O consumismo é
uma corrupção. O mal é uma corrupção
do bem. O consumismo é uma corrupção
do que seria normal, o desfrute das coisas boas que
a humanidade vai conseguindo fazer. É uma grave
deformação. Ter para exibir. Uma pessoa
tem um limite de roupa, de alimento, que pode consumir;
além daquilo, não tem sentido. No entanto
o capitalismo provoca. Infelizmente não se encontrou
um regime político que seja um equilíbrio
entre a livre iniciativa com seus méritos e o
socialismo, com as deformações que também
provocou. Na verdade, seria uma social-democracia -
admita-se a livre iniciativa, a propriedade privada
dos meios de produção. E não se
precisaria outra coisa além de obedecer a Constituição.
Veja, é a coisa mais linda. O kaput do artigo
170: "A ordem econômica, fundada na valorização
do trabalho humano e na livre iniciativa, tem por fim
assegurar a todos existência digna, conforme os
ditames da justiça social".
É isso. O artigo 170 se ajusta ao artigo 3o da
Constituição, que diz quais são
os objetivos fundamentais da República: "Construir
uma sociedade livre, justa e solidária, garantir
o desenvolvimento nacional, erradicar a pobreza e a
marginalização e reduzir as desigualdades
sociais e regionais, promover o bem de todos sem preconceito
de origem, raça, sexo, cor, idade". Esse
projeto constitucional é maravilhoso.
Revista do Idec: Pena que esteja só
no papel.
Bandeira de Mello: Sim, e por quê?
Porque ninguém dá nada a ninguém.
Ou as pessoas buscam aquilo que está sendo apresentado
como um direito delas ou nunca terão. E essa
busca, só com consciência de cidadania.
Você nem sabe que tem direito. Por isso, eu acho
que a educação pode ir promovendo essa
mudança. No momento, o controle social só
pode ser feito por essas organizações.
Mas a sociedade pode caminhar evolutivamente pela educação.
Muitas vezes na vida eu ouvi de pessoas humildes: eu
vou procurar meus direitos. Isso significa que ele vai
para a Justiça do Trabalho. Então, essa
é a única justiça significativa
para a grande maioria do povo brasileiro. Quanto aos
outros direitos, onde o povão vai? Para a delegacia
de polícia. Eles têm medo de juiz, até
de advogado, pois a relação deles com
o Estado é morrer na fila do INSS.
Então, o processo é lento. Logo que foi
dado o golpe de 64, eu já dava aulas na PUC,
e o senador Franco Montoro tinha sido meu professor.
Ele me chamou e disse: "Precisamos fazer uma reunião".
Eu não queria saber, estava escabreado.
Ele falou: "Os chineses têm um provérbio
que diz: 'a mais longa e a mais curta das estradas começam
pelo primeiro passo' ". Eu mudei de idéia
na hora. A gente tem de dar o primeiro passo.
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