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Idec: A Anatel e os acionistas confiam nesse balanço?
VF: Os acionistas não se manifestaram. A Associação [dos Engenheiros de Telecomunicações] enviou os dados que tinha à Anatel, ao Luciano Coutinho, presidente do BNDES e à CVM [Comissão de Valores Mobiliários]. E a Anatel como sempre não fez nada. O BNDES tem uma postura estranha nessa história. Disse que não podia dar informações porque se tratava de sigilo bancário. Não se trata de um banco de varejo, estamos falando de um um banco público, cujos proprietários são os cidadãos brasileiros, portanto ele deve satisfação à sociedade de tudo o que faz. E tem o dever de fiscalizar como é aplicado esse dinheiro. Então é impensável que o BNDES empreste 2 bilhões de reais a uma empresa e não faça um acompanhamento. Então, a conclusão é a seguinte: ou ele deixou de fazer e prevaricou como órgão estatal ou ele acompanhou e deixou de prestar satisfação à sociedade. Já a CVM se pronunciou com base nos argumentos da Associação e abriu um processo.
Idec: Você defende que a terceirização do contato com o cliente e da instalação e manutenção dos serviços, que é generalizada nas empresas de telecomunicações, implica perda de qualidade. Mas existe alguma empresa que não faz isso?
VF: A GVT tem seu próprio centro de atendimento, ela não terceiriza. Você pode terceirizar serviços básicos (segurança, alimentação, limpeza etc.), mas jamais o contato com seu cliente. Você já viu alguma empresa aérea terceirizar piloto de avião ou serviço de bordo? Nunca. Eles são funcionários da empresa, comprometidos com ela e com seus valores, preocupados em encantar e atender o cliente.
Idec: A ideia de que a concorrência traria benefícios ao consumidor é verdadeira?
VF: A competição é benéfica, mas da forma como o setor de telecomunicações está, ela é praticamente impossível. Imagine se o governo pensasse que o consumidor seria beneficiado se tivesse mais opções no setor de energia elétrica e implementasse a concorrência, abrindo um leilão. A empresa que ganhasse seria forçada a instalar centenas de postes, quilômetros de fios e transformadores. Espero que fique bem claro que é uma loucura fazer um negócio como esse. Tanto é loucura que ninguém faz. A mesma coisa acontece com a telecom, mas infelizmente pensaram que não era parecido com a energia elétrica. E é. Quem quiser concorrer com a Telefônica, com a Oi e a Embratel terá que gastar alguns bilhões de reais para construir uma rede, e é evidente que isso não é possível.
Idec: A chamada desagregação das redes ajudaria na concorrência?
VF: Sim, mas ainda não se conseguiu. A desagregação é algo fantástico, é a criação de uma empresa, pública ou privada, que compraria da Telefônica, da Oi e da Embratel todos os sistemas físicos (torres, fibras, estações etc.) que fazem parte da rede, com exceção do fio que liga o consumidor a toda a rede. Esse ficaria com as empresas (Telefônica, Oi etc.).
O modelo ideal seria ter só uma empresa atacadista, que seria dona de todas as torres, fibras e equipamentos do Brasil e venderia para a Oi, a GVT e a Telefônica pelo mesmo preço. Daria uma magnífica concorrência, porque elas teriam que competir não só em preço, mas em qualidade. É o modelo ideal, mas extremamente difícil de implantar. Na Inglaterra, a British Telecom está implantando um modelo bastante parecido. Ela já desagregou a parte de rede e existe uma empresa de atacado. Em banda larga já há uma tendência a adotar esse modelo, que é australiano, e ao meu ver é o melhor. No Brasil há uma tendência no Ministério do Planejamento bem próxima desse modelo. O secretário ainda não revelou tudo, mas dá para sentir. A proposta que transpirou até agora e que eu apoio 100% é a reativação da Telebrás, que seria essa empresa atacadista que teria todos ou quase todos os meios. Ela venderia a banda larga para a Telefônica, a GVT e a Embratel pelo mesmo preço, gerando competição. Fica claro que esse modelo não interessa à Telefônica, porque ele equaliza a competição.
Idec: Já existe esse modelo em funcionamento?
VF: Existe na Inglaterra. A British Telecom está implantando um modelo bastante parecido. Ela já desagregou a parte de rede e existe uma empresa de atacado que vende para a antiga British e para qualquer outra.
Idec: Comenta-se que estão sendo criadas empresas com a rede elétrica, a tal da powerline. Usar a rede elétrica para chegar ao sinal telefônico é bom?
VF: É bom. É uma tecnologia que está bem testada em vários locais e tipos de rede elétrica. Tem funcionado bem e no ano que vem deve começar a ser implantada no Brasil. Empresas vão oferecer, vender e instalar.
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