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  Revista n° 140 - Janeiro de 2010 « índice da edição  
     
  Entrevista:  
 

Telecom: por que é tão ruim?

 
     
 

Idec: Falando em telefonia fixa. Por que as chamadas empresas espelho não funcionaram no Brasil?
VF:
Uma que funcionou e está de parabéns é a GVT, que foi cautelosa desde o início, pois começou sem tentar concorrer. Ela começou sem terceirizar o contato com o assinante, tentando cativar o cliente, foi crescendo devagar e melhorando o serviço. A Vésper tinha um pecado original - seus donos eram a Bell Canada, do Canadá, a Qualcomm, dos EUA, a VeloCom, dos EUA, e a Vicunha, do Brasil. A Bell Canada tinha uma participação grande na Vesper, mas era dona também da Nortel, e obrigava a Vésper a comprar equipamentos da Nortel. E ai do presidente que quisesse fazer o contrário. A Qualcomm, sediada na Califórnia, é a detentora das patentes de CDMA, um tipo de telefonia celular digital, e obrigava a Vésper a adotar o CDMA. A VeloCom era uma empresa do Colorado, cujos donos queriam ficar ricos logo, por isso não deixavam a empresa trabalhar como a GVT, gradualmente. Dentro disso, o projeto financeiro da Vésper era concorrer pau a pau com a Telefônica. Quando eu assumi a presidência da Vésper, desde sua criação, me disseram "ó cara, você tem 4,6 bilhões de dólares para investir e concorrer com a Telefônica". E por que não deu certo? Nós chegamos no ano 2000 com 800 torres em 19 estados, 4.000 funcionários e R$ 4,6 bilhões para gastar. Só que aí o Carlos Slim [empresário mexicano], hoje dono da Embratel e da Telmex, combinou com a Bell Canada que ia comprar tudo o que ela tinha na América Latina. Só que quando a Bell Canada anunciou aos outros sócios que estava vendendo suas propriedades para a Telmex e para Carlos Slim, inclusive a Vésper e a Claro, a VeloCom mandou uma carta preparada por um advogado dizendo que estava proibido que um mexicano entrasse na Vésper para fazer o levantamento ou avaliar a empresa, pois ele era acionista e tinha o direito de comprar. A Bell Canada deu um prazo até abril de 2001. A VeloCom tentou desesperadamente conseguir um parceiro para comprar essa parte. O triste da história é que a VeloCom, ansiosa por ficar rica, impediu que o Carlos Slim, que tinha dinheiro a beça para investir, entrasse. Quando chegou em fevereiro ela disse que não conseguiu. E aí aconteceu algo dramático na Vésper. A Bell Canada retirou-se da Vésper. Então, presidentes da Vésper chegaram para mim em 2001 e disseram: "sabe aqueles R$4,6 bilhões que você tinha pra investir? A Bell Canada saiu e agora você tem apenas R$ 2 bilhões". Então, eu fiz as contas do que dava para fazer com esse valor e vi que teria que demitir metade da empresa. Além disso, devido à redução dos investimentos, os acionistas fizeram uma reunião por telefone comigo e disseram que não tinham dinheiro para fazer as instalações em todas as cidades que tinham prometido à Anatel. "Por causa dessa falta de dinheiro, queremos que você vá a Anatel e convença o Renato Guerreiro [então presidente da Agência] a não exigir que nós façamos essas instalações". Esse pedido era extremamente antiético e eu expliquei isso aos acionistas, mas não fui ouvido. Além disso, há um contrato assinado com a Anatel e com o governo e eu sou o responsável legal pela empresa. Se eu não cumprisse esse contrato, caso o Guerreiro aceitasse, nós teríamos a Procuradoria Pública, que é um órgão independente, ou seja, não responde nem ao governo nem ao judiciário. Eu me senti desconfortável e preferi me afastar da empresa, que foi posteriormente vendida à Embratel. Para coroar essa história, queria dizer que a Vésper não cumpriu o contrato, e a Anatel, sob a presidência do Renato Guerreiro, jamais investigou isso. E ficou elas por elas, o dito pelo não dito, virou pizza. O que mostra que desde o governo FHC a Anatel é omissa, inexistente e incompetente.

Idec: Na telefonia celular, as operadoras pertencem, praticamente, aos mesmos grupos que controlam as teles fixas. A competição nesse setor é diferente?
VF:
Não tenho provas, mas é possível que esteja havendo uma combinação entre as empresas, que dividiram o território brasileiro. Há uma divisão de mercado que elas mais ou menos assumem, há uma estratégia suicida por parte de todas elas, na qual entraram e da qual não estão sabendo sair. Por exemplo, a Oi não entra em São Paulo e a Vivo não entra no Rio de Janeiro, mas elas poderiam entrar.

Essas empresas acham que sua importância é medida pelo número de usuários, e por isso investem na venda do pré-pago, que faz sucesso nas camadas mais pobres da população. Só que com isso o lucro é pequeno ou negativo, pois, por ele ser mais usado para receber ligações, a conta média costuma ser em torno de R$ 26 por usuário. Se eu fosse presidente de uma empresa de celular, eu não iria me preocupar com o número de clientes. Se eu tiver 1 milhão de pré-pagos fazendo cada um uma ligação por mês e outra empresa tiver 100 mil pós-pagos que façam 30 ligações por mês, a segunda estará ocupando seu equipamento e amortizando seu investimento, vendendo ligações e lucrando mais. Essa visão falta às empresas.

Idec: Por que antes da privatização era tão difícil conseguir um telefone fixo? Houve época em que as linhas eram investimento, como um carro, um imóvel...
VF:
Era tão difícil e caro porque assim queria o governo federal. Era do interesse do Delfim Netto, que era ministro do Planejamento na época, e de seus seguidores que isso acontecesse. Isso não acontecia porque a Telebrás e suas subsidiárias eram incompetentes e não tinham dinheiro. A Telebrás não tinha a liberdade que a Petrobrás e o Banco do Brasil tinham como estatal e foi isso que provocou seu engessamento. Enquanto os milicos governavam, as telecomunicações, por questões estratégicas militar, eram consideradas prioridade. Com a redemocratização, a Telebrás e suas subsidiárias tinham muitas linhas e recebiam muito dinheiro. Existia, inclusive, o Fundo Nacional de Telecomunicações, cujo objetivo era recolher o dinheiro de cada ligação e de cada assinatura. Tudo o que esse fundo arrecadasse deveria ir para instalações novas, que não foram feitas. Por ordem do Delfim Netto esse fundo era imediatamente roubado para o tal do Fundão, que tinha como objetivo pagar a dívida externa. Ainda assim a Telebrás chegava ao final do ano com 20 bilhões de lucro. Aí ela dizia "tenho 20 bilhões e quero investir 15 bilhões em novas linhas". Quando a Petrobrás queria fazer isso, fazia. A Telebrás, por sua vez, tinha que levar a proposta de investimento a uma entidade kafkiana criada por Delfim Netto chamada Secretaria de Controle das Estatais (SEST), que tinha de dar autorização. E sempre a resposta da SEST era "sinto muito, mas só autorizamos o uso de 3 bilhões". E esse investimento aprovado pela SEST tinha que ser aprovado também pelo Congresso Nacional. Então, em vez de instalar 1 milhão de telefones, eram instalados apenas 200 mil. E aí as consequências são essas que você citou. Se em vez de 1 milhão eu instalo 200 mil eu não atendo todo mundo. Nós éramos o grande contribuidor do Fundão. Se tivéssemos a liberdade que a Petrobrás tinha, nós teríamos hoje uma telefonia melhor do que a que foi implantada pela privatização. Nós seríamos a Petrobrás das Telecomunicações!


 
   
   
   
   
   
   
 
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