|
O que está acontecendo com os serviços
publicos?
Caro leitor,
Não é fácil entender o que
aconteceu com os serviços públicos
depois das privatizações. Mas nós
que pagamos as contas precisamos entender para
defender os nossos direitos.
Esta cartilha foi escrita para isso. É
a primeira de uma série planejada pelo
Idec - Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor,
uma associação de consumidores que
não tem nada a ver com governo, empresas
ou partidos políticos. O objetivo é
orientar e conscientizar os consumidores sobre
seus direitos e também seus deveres.
Esperamos que você e seus amigos e vizinhos
tirem bastante proveito deste trabalho.
Os editores
Eram onze e meia da noite de uma segunda-feira
chuvosa. Depois de subir aquela maldita ladeira
seu Jair nem acreditava que estava chegando em
casa. Também pudera... havia meses que
a Associação de Amigos do Bairro
de Sempetiba estava bata-lhando junto à
Prefeitura para a colocação de mais
dois postes de luz pelo menos, e até agora
nada; enquanto isso, os moradores do bairro tinham
de enfrentar o escuro...
Girou a chave e abriu a porta. Silêncio...
Todos estavam dormindo. A mão buscou o
interruptor para acender a luz, mas nada aconteceu...
Era só o que faltava: não ter luz
elétrica! Faltar água era comum,
mas luz?!!! Para que trabalhar o dia todo, se
esforçar para sustentar a família
e pagar as contas em dia, se nem conseguia tomar
um banho quente antes de dormir? De repente, um
som vem de longe:
T r r r r r i i i i i m m m m m!
Seu Jair acordou com o barulho do despertador.
Ainda bem que era apenas um sonho, ou melhor,
um pesadelo! Correu para apertar o interruptor
e sentiu um alívio quando a luz acendeu.
Sua esposa, dona Lurdes, apareceu à porta
do quarto interrompendo seus pensamentos:
- Desliga essa luz, Jair! Vai ficar gastando luz
de dia? E vê se veste a roupa rápido
porque eu já estou passando o café.
Hoje tenho faxina na casa da Dona Rosa! E você
sabe que sem esses bicos a gente nem ia ter dinheiro
para pagar as contas! Não esqueça
disso e se apresse homem de Deus! Na cozinha,
quase todos já estavam à volta da
mesa: Joana, a filha de 16 anos e Jorge, o filho
de 14. Só Júlio, o caçula
de cinco, que estudava à tarde, ainda estava
dormindo. Tudo parecia em ordem até que
Dona Lurdes começou as reclamações:
- Olha Jair, eu acho que a água vai acabar
já, já. Por pouco eu não
fiz o café! Só está saindo
um fiozinho d'água da pia. - e enquanto
serve café para os filhos, continua - E
você, dona Joana, vê se não
vai ficar duas horas no banho hoje à noite!
Se não a gente além de não
tomar café amanhã, não vai
comer mais! Essas contas estão uma calamidade!
- Ah, mãe... até parece que eu sou
a única daqui de casa que usa água!
- Pode não ser a única, mas é
a que desperdiça uma barbaridade..
. Seu Jair começou a achar que seu pesadelo
estava virando rea-lidade... A vida estava cada
dia mais difícil... Só ele e Joana
estavam empregados na casa; a mulher fazia uns
bicos de fa-xineira no Edifício Brasil,
prédio onde ele era porteiro há
cinco anos. Jorge, com 14 anos, não podia
trabalhar de carteira assinada e não estava
conseguindo nem uns bicos... Um dia desses seu
Jair ia levar o garoto com ele até o prédio
para ver se o síndico arrumava alguma coisa
para o menino fazer uns trocados, pelo menos para
garantir os livros e os cadernos e poder continuar
estudando à noite...
Já era hora de ir para o trabalho e Joana
foi a primeira a sair, correndo como sempre. Precisava
chegar antes de o supermercado abrir, pois os
caixas deviam ter tudo pronto para atender aos
clientes. Depois, não podia perder nenhum
minuto: saía às seis da noite em
ponto, para chegar às sete e quinze dentro
da sala de aula, na Escola Técnica, onde
tentava acabar o curso de secretariado. Seu sonho
mesmo era ser jornalista! Para isso, teria que
arrumar um emprego melhor e, como secretária,
teria chances de ganhar mais para poder pagar
sua faculdade!
Seu Jair espantou o desânimo e os pensamentos
ruins e se despediu da mulher, saindo acompanhado
de Jorge.
Como de costume, os dois tomaram o mesmo ônibus:
um já cansado antes de começar a
trabalhar e o outro cansado de tanto procurar
emprego. Ô vida dura!
Sentaram próximo ao cobrador para conversar.
Poucos quarteirões adiante o trânsito
ficou muito lento. Seu Jair perguntou ao cobrador,
que já fizera o mesmo percurso antes, o
que estava acontecendo.
- Ah, isso aí é o pessoal daquela
companhia nova... como é mesmo o nome?...
é... é...
- Interfônica? - interrompeu Jorge.
- É isso aí, Interfônica!
Eles estão trocando uns fios de telefone
desse bairro.
Seu Jair não entendeu nada:
- Como assim? Quem cuida dos telefones não
é o governo?
- Ih, mas você é desligado do mundo
mesmo, não Jair? Você não
ouve rádio nem vê TV? Agora mudou
a empresa. Foi tudo vendido!
- Mas como podem vender ou comprar um serviço
público, que é do povo? Isso é
um absurdo! Vendo que o pai já estava confundindo
tudo, Jorge achou melhor interferir na conversa
dos dois:
- Não pai, um serviço público
vai sempre ser público. Meu professor explicou
que serviço público é aquele
que existe para satisfazer as necessidades dos
cidadãos para que possam viver dignamente.
A energia elétrica, por exemplo, é
um serviço público.
- Até aí filhão, continuo
na mesma...
- É assim ó... - a essa altura,
outras pessoas do ônibus prestavam atenção
na explicação que Jorge iniciava
- a água, a energia elétrica, o
saneamento e o telefone são alguns serviços
públicos fundamentais para a gente poder
viver com o mínimo de conforto possível.
- E de onde vem isso tudo? - perguntou o cobrador.
- Todos esses serviços podem ser prestados
pelo governo, como era antes, ou por qualquer
outra empresa que receba do governo uma autorização
para isso. A Interfônica, por exemplo, comprou
a empresa de telefone e, por isso, tem autorização
do Estado para prestar esse serviço.
- Isso que é privatização,
seu Jair. Eu ou-vi no programa do rádio.
O Tom Silva falou que o serviço pú-blico
não deixa de ser público por estar
sendo prestado por uma empresa privada... certo?
- emendou o co-brador.
- Entendi.
- Mas eu fiquei com uma dúvida... Quem,
afinal de contas, é o dono desses serviços,
Jorjão? - continuou o cobrador.
- Ah, existem várias empresas que são
donas desses serviços! Cada região
do país tem as suas. - Fácil, né?
Assim o governo lava as mãos de tudo!!!
- fechou seu Jair.
- Não, o governo tem de fiscalizar as empresas
privatizadas que ele criou. Existe um contrato,
com todas as regras. E nós, os consumidores,
temos a obrigação de ficar de olho,
reclamar e ir até à Justiça,
se for necessário.
Seu Jair estava tão, mas tão orgulhoso
de Jorge, que quase mandou o cobrador e todos
os outros passageiros aplaudirem o menino. Este
sim teria futuro... seria advogado, juiz talvez...
Mas chegou a hora de descer do ônibus. Eles
se despediram do cobrador, deram o sinal para
o motorista e se foram.
Seu Zé, o outro porteiro, saiu correndo,
recomendando que seu Jair separasse as contas
de telefone e de luz que haviam chegado. Seu Jair
começou o serviço, prestando mais
atenção aos envelopes de cobrança,
lembrando-se do papo que acabara de ter no ônibus
e das lutas do Zelão, lá da Associação
de Moradores do Bairro.
O Zelão era um cara legal, estudado, tinha
feito o técnico em edificações
e era mestre de obras de uma grande empreiteira.
Era danado, o homem. Além de dirigir a
Associação, também fazia
parte do sindicato, entendia dos direitos dos
trabalhadores, das pessoas. E dizia sempre: "Todos
temos direitos, a gente só tem é
que se virar para saber quais são e cobrar!".
Seu Jair achava bonito o jeito que Zelão
falava, explicando as coisas para todo mundo entender.
Olhando as contas dos moradores do Edifício
com mais atenção, seu Jair foi compreendendo
melhor o que o Zelão explicara na semana
anterior durante a reunião da Associação
sobre os aumentos absurdos das contas de luz e
água:
- Depois das privatizações, ou seja,
da venda das empresas que antes eram do governo
para grupos particulares, as tarifas dos serviços
públicos subiram muito. Sabem por quê?
Antes, o governo controlava os serviços
públicos e mantinha os preços desses
serviços sem reajustes, para conter um
pouco a inflação, que era muito
alta, lembram-se? Só que isso fez com que
os preços desses serviços ficassem
desatualizados e que as empresas públicas
ficassem sem pessoal e equipamentos para trabalhar
direito. Sem dinheiro, como prestar os serviços
com qualidade e eficiência? - explicou Zelão,
com calma.
- Hummm.... por isso acharam melhor privatizar
tudo? - quis saber Joana que, desde menina, já
gostava das reuniões da Associação.
- Isso mesmo, Jô.
- Mas por que aumentos tão grandes? - perguntou
seu Manoel, vizinho de seu Jair.
- Quando começou a privatização,
o governo tinha que tornar essas empresas públicas
bons negócios para outras empresas se interessarem
em comprar. Então, eles começaram
a atualizar os preços das tarifas. Eu me
lembro que a assinatura mensal do telefone aqui
da Associação - que é o pagamento
que a gente faz para poder ter a linha - custava
só trinta e dois centavos em 94. Hoje está
custando dezesseis reais e quarenta e nove centavos...
- É por isso que você está
batalhando para a gente ter mais ore-lhões
aqui no bairro, Zelão? - quis saber seu
Jair.
- Claro! Até porque isso é um direito
de todos os cidadãos! Assim como a luz
elétrica! Aquele abaixo-assinado que todos
vocês ajudaram a passar aqui no bairro já
foi encaminhado à Prefeitura junto com
uma carta, pedindo mais postes. Isso também
é uma questão de segurança,
já que está cada dia mais perigoso
andar por ruas escuras tarde da noite!
- Zelão, você viu a conta de luz?
Eu e o Jorge fizemos a soma: a de lá de
casa aumentou mais de cem por cento! - retrucou
Joana.
- Não pra todo mundo, Joana! Depende de
quanto você gasta. Porque agora o subsídio
cruzado não é mais o mesmo.
- Suba...o quê? O que é isso, Zelão?
- coçou a cabeça Manoel.
- Subsídio cruzado. Subsídio quer
dizer ajuda. É simples: antigamente, quem
gastava mais luz pagava mais e quem gastava menos,
pagava menos. Hoje ainda continua assim, mas a
ajuda que os mais pobres recebem diminuiu e, aí,
tudo ficou bem mais caro. Os aumentos de tarifa
de luz não foram proporcionais, quem não
tem condições de pagar saiu perdendo.
- Deixa eu ver se entendi: uma fábrica
que tem um monte de máquinas funcionando
e gasta luz pra caramba, recebeu um aumento na
tarifa de energia elétrica muito menor
do que nós, que ralamos feitos uns escravos?
- revoltou-se Joana.
- Comparando, sim. Na verdade, quem saiu ganhando
foram os grandes consumidores de serviços
públicos.
- Mas é muito injusto! - protestaram.
- Olha, pessoal, essa é uma questão
muito importante e merece uma explicação
bem legal. Eu sei que muitos moradores aqui de
Sempetiba estão desempregados e está
havendo corte de água e luz por falta de
pagamento. Eu me informei direitinho e, pelo Código
de Defesa do Consumidor - que é uma lei
que garante os nossos direitos - você pode
parcelar a dívida ou negociá-la,
desde que se comprove não ter condições
de pagá-la!
- Ô Zelão! Que coisa mais maravilhosa!
Esse é justamente o meu caso! Você
pode me ajudar nisso? - animou-se seu Manoel,
desempregado há oito meses.
- Com certeza, Manoel!
- Lá nesse Código diz, por exemplo,
que todo consumidor, ou seja, cada um de nós,
tem que ser atendido e é preciso ser respeitado,
ter sua dignidade, saúde e segurança
asseguradas...
Após ter divagado por um bom tempo, Jair
apressou-se para terminar de colocar as contas
em ordem e, para esquecer os problemas e se distrair
um pouco, ligou sua TV. De repente, a televisão
desligou sozinha. De novo a energia elétrica
tinha acabado!
- Que inferno! Só falta algum morador ter
ficado preso no elevador! Sem falar que qualquer
dia desses essa máquina vai quebrar de
tanto que falta luz... - pensou seu Jair enquanto
ia checar. Nem tinha chegado perto do elevador
social quando viu o síndico, o advogado
Fernando, carregando uma vela.
- É uma droga quando falta luz, não
é mesmo, Jair?
- Se é!... Doutor Fernando... - respondeu
seu Jair, falando dos problemas que o elevador
poderia vir a apresentar.
- Calma Jair, tudo bem. Toda pessoa que paga por
um produto ou serviço tem alguns direitos
que devem ser garantidos. Por exemplo, se uma
queda de energia como essa provocasse algum dano
ao prédio, queimasse o motor do elevador,
o condomínio poderia exigir que a empresa
pagasse o conserto e, se ela recusasse, poderia
ir à Justiça. Afinal, nós
pagamos a conta de luz e temos o direito de não
termos nenhum prejuízo por causa de um
problema que não fomos nós quem
causamos. A gente teria de escrever uma carta
para a concessionária de luz e mandar junto
três orçamentos de empresas dife-rentes
do conserto do elevador. Aí eles teriam
que pagar, entendeu?
- Tô entendendo... Tem uma lei para essas
coisas, o tal Código de Defesa do Consumidor
não é, doutor?
- Muito bem, Jair! Você está bem
informado!
Nesse momento, voltou a energia no edifício
Brasil
. - Que bom que foi por pouco tempo e, ao que
parece, o elevador já está subindo!
Tchau, Jair, vou jantar!
- Até logo, doutor.
Às sete da noite, depois de mais um dia
de trabalho, Jair trocou de turno com o Moreira.
Já em casa, na hora do jantar, seu Jair
comentou tudo o que aprendeu durante o dia para
a família. Porém, eles pareciam
prestar mais atenção à TV,
que exibia um capítulo de "O Caminho
do Amor", a novela das oito.
Vruuuum!...
faltou luz de novo! E justo na parte mais emocionante
do capítulo!
- Não acredito! Eu nunca vou saber quem
é o pai do Carlos Alexandre! - bradou dona
Lurdes enfurecida.
- É o Antônio Roberto, mãe.
Saiu na revista. - salvou Joana. - Justo hoje
que a escola está em greve e a gente não
teve aula!...
Ela mal tinha acabado de falar quando a energia
voltou, mas a TV fez um barulho esquisito e não
ligou mais:
PSHIIIIIIIIIIUUUU.
- A televisão queimou! - gritou Jorge.
- Era só o que faltava! - berrou Júlio.
- Ai, meu Deus, Jair! Logo agora que a gente está
tão apertado de dinheiro! Não vai
dar para pagar o conserto! Nem essa casa a gente
acabou de pagar! Estamos devendo o material da
cons-trução, ai meu Santo Expedito!
- desesperou-se dona Lurdes.
- Só pode ser o "gato" que o
pessoal daqui anda fazendo! Não viu o Manoel
dizendo lá na reunião da Associação
que não está podendo pagar as contas?
Na hora eu não quis falar nada, mas eu
vi que ele e o Vicente estão com gambiarras
em casa, tudo para não ficar sem luz!
- É mesmo, pai. Com isso, a gente acaba
prejudicado: o forneci-mento de energia já
é ruim e insuficiente para o bairro inteiro,
com os "gatos" então..., fica
dando esse tipo de problema a toda hora! - completou
Jorge.
- Por pouco a TV não pegou fogo! Vocês
estão sentindo o cheiro de queimado? A
gente tem que dar um jeito nessa situação!
- observou Jair.
A família já estava entrando em
pânico quando seu Jair se lembrou do exemplo
que o doutor Fernando lhe dera durante o dia,
aquele do motor do elevador.
- Calma, pessoal. Eu tenho quase certeza que a
gente pode reclamar e fazer com que a companhia
de luz pague por isso. Amanhã eu pergunto
para o doutor Fernando como é que a gente
escreve a carta reclamando para a companhia de
luz.
- E eles vão consertar a nossa TV? - quis
saber Júlio.
- Não, eles vão pagar o serviço!
O doutor me explicou direiti-nho como é
que a coisa funciona! A gente paga a conta de
luz, não é? Então se uma
queda de energia estraga um aparelho nosso a companhia
tem que se responsabilizar.
Joana, já treinando para ser jornalista,
mais do que depressa se prontificou para escrever
a tal carta. - Gostei, pai! Pega um modelo com
o doutor Fernando que eu faço a carta bem
caprichada!
- Pai, pode deixar que eu levo a carta pessoalmente
na empresa. Se tiver problema, já descubro
na hora! - disse Júlio, colaborando.
- Não sei, não. Será que
isso vai dar certo? - duvidou dona Lurdes.
- Lógico que vai, Lurdes. Qualquer coisa,
o Zelão pode recorrer à Comissão
de Serviços Públicos de Energia,
em nome da Associação. Ah... e ele
pode procurar também a tal de Aneel, a
Agência Nacional de Energia Elétrica.
Ele explicou outro dia, lembra? Ele já
está tentando ver a questão do parcelamento
das dívidas do Manoel... o homem está
ficando entendido dos nossos direi-tos! A gente
tem muitos recursos mulher, é só
saber usá-los! - encerrou seu Jair, dando
uma piscadela para os filhos.
|