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Energia no seu telhado

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Energia no seu telhado

Energia solar está em expansão no Brasil, mas custo ainda dificulta acesso a essa alternativa sustentável.

Entenda como funciona e quanto custa um sistema de energia solar, além das vantagens de adotá-lo em sua casa

Há alguns meses, o gestor de investimentos Adriano Montanhole parou de se preocupar com suas contas de luz. Em agosto deste ano, ele instalou na casa onde vivem seus familiares, em Embu das Artes (SP), um sistema de energia solar fotovoltaica com capacidade para abastecer o local e também o apartamento onde mora, na capital paulista. Se você sabe pouco sobre esse sistema, talvez não esteja entendendo muito bem essa história. Como é possível que painéis solares instalados em um imóvel forneçam energia para outro, em cidades diferentes?

A explicação é relativamente simples. Diferentemente do que muita gente imagina, a energia gerada pelos painéis não é usada para abastecer diretamente o imóvel onde eles estão instalados.

Na verdade, a energia é direcionada para a rede da distribuidora de eletricidade, que vai pagar por ela por meio de descontos na conta de luz e continuar prestando o serviço normalmente. “É como se o consumidor fizesse um escambo com a concessionária. Quanto mais energia o sistema fotovoltaico jogar para a rede, menos o usuário vai pagar na conta de luz. Ao mesmo tempo, ele não precisa se preocupar com a falta de luz quando não há Sol – à noite ou em períodos chuvosos, por exemplo –, pois o fornecimento continua ocorrendo de forma ininterrupta”, explica Clauber Leite, pesquisador do Idec em energia.

A possibilidade de gerar energia solar e obter descontos na conta de luz existe desde 2012 no Brasil, quando a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) publicou uma norma sobre as chamadas mini e microgeração distribuída, ou seja, realizadas pelos próprios consumidores. Ela vale para outras fontes de energia, como eólica e biomassa, mas 99% do total de instalações são do tipo solar fotovoltaico, segundo a agência. As regras foram atualizadas e entraram em vigor em março de 2016, quando passou a ser possível adotar a modalidade chamada de “autoconsumo remoto”, que significa usufruir de um sistema instalado em outro local, como faz Montanhole. Mas há algumas condições para isso. Saiba quais são elas no quadro ao lado.
Com as novas regras, o Brasil vem vivendo um boom de energia solar: segundo dados da Aneel, no fim de 2016, a quantidade de mini e microgeradores fotovoltaicos registrados foi mais de quatro vezes superior ao do fim de 2015. Até maio deste ano, havia 10.453 sistemas instalados no País - 79,5% deles de consumidores residenciais. O Estado de Minas Gerais lidera o ranking, com 2.263 instalações, seguido por São Paulo, com 2.116. A expectativa da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) é de que até o fim de 2017 a capacidade de geração dessa fonte de energia no Brasil seja 11 vezes maior do que a do ano anterior.

TODO MUNDO PODE TER ENERGIA SOLAR?
Teoricamente, sim. Mas há alguns requisitos a que o imóvel precisa atender, como ter área mínima de 50 m² disponível sem sombra – por isso o telhado costuma ser o local onde os painéis são instalados. O sombreamento pode ser provocado por árvores, prédios ou outra casa mais alta ao lado, por exemplo. Quem avalia se o imóvel está apto para adotar o sistema são empresas especializadas, que fazem uma visita técnica ao local. Quem não tem espaço disponível, pode avaliar a possibilidade de instalar o sistema em outro endereço, inclusive em outro município – o chamado autoconsumo remoto. Para isso, os dois locais devem ter a rede de energia cadastrada sob o mesmo CPF (no caso de imóveis residenciais) ou CNPJ (imóveis comerciais) e ser abastecidos pela mesma distribuidora de eletricidade. Essa possibilidade também é útil quando o sistema gera mais energia do que é consumida no local, pois o excedente não é pago em dinheiro. Ele pode ser transferido para outra conta de luz (seguidas as exigências acima descritas) ou virar crédito, que pode ser utilizado para descontos na fatura de energia em até cinco anos.
 

QUAIS SÃO AS VANTAGENS?

Segundo o presidente da Absolar, Rodrigo Sauaia, há dois motivos centrais para esse crescimento vertiginoso do setor: o cenário combinado de aumento das tarifas de energia elétrica e de queda no custo da energia solar, que barateou cerca de 80% nos últimos 10 anos no Brasil. “Até 2040, a solar deve ficar 60% mais barata, e a energia elétrica deve ficar mais cara. Então, vai fazer cada vez mais sentido investir nesse sistema”, garante.

Assim, para o consumidor, a principal vantagem de gerar energia solar é financeira. De acordo com Sauaia, normalmente um sistema fotovoltaico reduz de 80% a 90% o valor da conta de luz. A conta só não é zerada porque há uma tarifa de disponibilidade cobrada pela concessionária pelo uso de sua rede, cujo valor varia de uma empresa para outra – a Eletropaulo cobra cerca de R$ 25, segundo Montanhole.

Além disso, outro grande benefício é o ambiental, já que a energia fotovoltaica é uma fonte mais limpa porque não emite gases de efeito estufa e poluentes durante sua geração. “O mundo inteiro está migrando para a energia solar e para outras novas fontes renováveis por uma questão climática, para se afastar do uso de combustíveis fósseis, que são altamente poluentes e contribuem para o aquecimento global”, destaca Pedro Telles, especialista do Greenpeace em Clima. No caso do Brasil, as hidrelétricas, que são a principal fonte de energia e vêm sendo construídas na Amazônia, também causam grandes impactos sociais. 

Os dois fatores contribuíram para o gestor de investimentos adotar o sistema fotovoltaico. “O primeiro motivo foi o retorno financeiro, mas também me influenciou a ideia de fazer algo legal ecologicamente e bom para o País como um todo. Por mais que eu seja só uma gotinha no oceano, estou contribuindo para diminuir a demanda do sistema elétrico”, ele afirma. 

A lógica da geração distribuída é justamente essa: quanto mais pessoas e estabelecimentos comerciais e industriais gerarem sua própria energia, mais se reduzirá a demanda por energia elétrica. “Com isso, é possível postergar investimentos em novas usinas, que nos últimos anos têm sido fundamentalmente termelétricas – as quais, além de gerar grande impacto ambiental, contribuem para aumentar a tarifa para o consumidor”, destaca Leite.

CUSTO E RETORNO DO INVESTIMENTO

Do ponto de vista econômico, Montanhole está convicto do sucesso do negócio. Ele investiu R$ 32 mil no projeto, que tem capacidade de gerar 800 kW por mês. “O payback [retorno do valor investido] será de sete anos. Vou ter mais 25 anos de conta de luz de graça”, ele diz, considerando a vida útil estimada dos painéis solares, de cerca de 30 anos. “O cálculo financeiro mostra que o investimento que fiz em energia solar representará uma taxa de retorno mais de duas vezes superior à de formas de investimento tradicionais, como o Tesouro Direto”, comemora.  

O chamado payback diz respeito ao prazo em que se recupera o valor investido no sistema fotovoltaico por meio dos descontos na conta de luz, considerando a tarifa de energia cobrada pela concessionária local e estimativas de reajuste. Passado esse prazo, o consumidor que adotou o sistema passaria a “lucrar” – ou seja, a apenas desfrutar dos descontos, com o aparato já todo pago. Especialistas afirmam que, hoje, o payback gira em torno de seis a sete anos. Será?

Para apurar preços, condições e o tempo para se recuperar o valor investido, o Idec pediu orçamentos para instalação de painéis solares em dois imóveis localizados em São Paulo, com tamanhos e consumo de energia bem distintos: um deles é a sede do Instituto, na Zona Oeste da capital, que tem 190 m² de telhado e consumo médio de 3.500 kWh por mês; e o outro, uma residência na Zona Leste, onde vive uma família de cinco pessoas, com área de 75 m² e consumo médio mensal de 270 kWh.

Foram solicitados orçamentos a 11 empresas especializadas, listadas no site da Absolar e no Mapa de Empresas do Setor Fotovoltaico, do Instituto Ideal. Apenas sete delas responderam.

Para a residência, o preço médio apurado foi de R$ 16.700, sendo o valor mínimo R$ 13.461 e o máximo R$ 20.712 – uma variação significativa. “Considerando a capacidade de geração de energia indicada nos orçamentos e o valor das tarifas de energia elétrica praticadas pela Eletropaulo, o retorno do investimento do sistema nesse imóvel se daria entre sete e 11 anos”, informa Leite. Já para o imóvel comercial, embora o valor investido seja bem mais alto – R$ 133 mil, em média –, o payback seria consideravelmente menor: de quatro a sete anos. “Considerando os dois exemplos consultados, podemos inferir que sistemas de porte maior tendem a ter um retorno de investimento mais rápido”, avalia o pesquisador do Idec. Ele pondera que todos os orçamentos foram apresentados sem visita aos locais e que a maioria dos fornecedores enfatizou que essa seria uma etapa importante para indicar o preço definitivo.  

Além disso, Leite destaca que as tarifas de luz variam bastante pelo Brasil, e que o retorno do investimento pode ser reduzido em locais onde ela é mais alta do que em São Paulo. Segundo o presidente da Absolar, esse é o caso de Minas Gerais. Ele também explica que há outros fatores que influenciam no preço do sistema fotovoltaico, como características específicas de cada projeto (o tipo de telhado, por exemplo) e a logística – se a cidade é grande, se há várias empresas na região etc.

DIMINUIR A BARREIRA FINANCEIRA

Embora o custo venha caindo e as estimativas indiquem que o negócio vale a pena, o valor necessário para se investir em painéis solares ainda é bastante elevado para a maioria das famílias brasileiras. Um estudo lançado pelo Greenpeace em maio de 2016 defende a liberação do uso de recursos do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) como meio de expandir a adoção dos sistemas fotovoltaicos no Brasil. Hoje, o trabalhador pode resgatar o FGTS em algumas situações, como para a compra do primeiro imóvel.  “Destravar um dinheiro que já é seu é o mais adequado e o que se mostrou mais eficiente no estudo”, diz Telles. 

No entanto, atualmente, não existe nenhuma iniciativa para a implementação dessa regra para energia solar. Há apenas opção de financiamento para quem não tem o recurso disponível, oferecida por bancos e, às vezes, pelas próprias empresas de sistemas fotovoltaicos. Mas Sauaia, da Absolar, critica que as linhas de crédito atuais não têm taxas de juros e prazos muito atraentes, sobretudo para pessoa física. “Falta empenho dos bancos públicos, principalmente, para facilitar o acesso”, defende. 

O estudo do Greenpeace também aponta que reduzir tributos que incidem sobre as placas que compõem os painéis solares, como Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) e Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), diminuiria em até 20% o preço dos sistemas e os tornaria mais viáveis para muitas famílias. “Seria possível reduzir [o valor do sistema] se o governo adotasse isonomia tributária, já aplicada a outras fontes renováveis”, argumenta o presidente da Absolar.
Telles destaca que, no Brasil e no mundo, o setor de energia como um todo depende muito de políticas públicas para se desenvolver. Assim, cabe ao Estado decidir quem vai favorecer. “Hoje, 70% dos investimentos do Governo ainda vão para energia suja”, critica. O pesquisador do Idec concorda que políticas de incentivo, como redução de impostos, são importantes, mas pondera que, atualmente, elas têm favorecido apenas a parcela com maior poder aquisitivo, que podem investir nos sistemas fotovoltaicos. “Não se pode esquecer de que todos os consumidores pagam pelos subsídios, então, o que acaba acontecendo é que o pobre financia o rico”, diz Leite.

MAIS INFORMAÇÃO

Para além de preço e de políticas públicas, os especialistas concordam que um dos principais entraves para a popularização da energia solar distribuída é a falta de informação. Montanhole conta que essa foi sua maior dificuldade. “As informações prestadas pelos vendedores não me bastavam, então tive de passar por um processo de aprendizado”, lembra ele, que chegou a fazer cursos sobre o tema e agora pensa em empreender na área. “A partir do momento em que as pessoas tiverem conhecimento de que a energia solar é durável e confiável e de que elas terão o mesmo nível de conforto e segurança que têm hoje, perceberão que têm uma oportunidade nas mãos”, aposta.

Apesar da forte expansão vivida nos últimos anos, há consenso de que a energia solar no País ainda está muito aquém de seu potencial. O número de instalações aqui não chega a 1% do que existe na Alemanha, líder mundial nessa fonte de energia, com 1,5 milhões de sistemas. O Brasil também está atrás de países em desenvolvimento, como Índia, China, África do Sul e o vizinho Chile.

Estamos atrasados, mas no caminho certo. E, considerando o mercado internacional de energia, os especialistas concluem que a tendência de ampliação da energia solar é irreversível. “A questão é quanto tempo ainda vamos demorar na migração para novas fontes e quanto ainda vamos insistir nas fontes sujas”, provoca o especialista do Greenpeace.

 

COMO CALCULAR O PAYBACK?

 
1. Verifique o consumo médio atual de energia e o valor médio da conta.
 
Exemplo: 
Consumo: 270 kWh/mês
Conta de luz: R$ 160
 
2. Observe o quanto a estimativa de geração de energia solar (fornecida no orçamento) representa do consumo mensal para calcular a economia na conta de luz.
 
Exemplo:
Estimativa de consumo: 229,5 kWh/mês = 85% do consumo
Conta de luz (R$ 160) – 85% = R$ 136/mês de economia
 
3. Multiplique o valor economizado por 12 para saber a economia por ano:
 
R$ 136 x 12 = R$ 1.632
 
4. Agora divida o preço orçado para o sistema fotovoltaico pelo valor economizado por ano.
 
Exemplo: 
Orçamento do projeto: R$ 16.700 
16.700 : 1.632 = 10,2 anos

*Cálculo de payback simples. Não considera estimativas de inflação, juros de financiamento, nem reajuste da tarifa de energia no período