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Dia da consciência negra

Dia da consciência negra

Marcio Black, do Instituto de Referência Negra Peregum, comenta a pesquisa “Percepções sobre o racismo no Brasil”.

"Eu tenho algumas atitudes ou práticas consideradas racistas?". Essa é uma das muitas perguntas que compõem a pesquisa "Percepções sobre o racismo no Brasil", encomendada pelo Instituto de Referência Negra Peregum e pelo Projeto SETA (Sistema de Educação por uma Transformação Antirracista) e realizada pela Inteligência em Pesquisa e Consultoria Estratégica (Ipec). Duas mil pessoas, com mais de 16 anos, de todas as regiões do país, foram entrevistadas em abril deste ano. O objetivo era identificar a opinião da população brasileira sobre racismo, de forma a orientar agentes e instituições estatais, do mercado e do terceiro setor para a promoção da equidade racial no Brasil.

Numa conversa pelo Zoom, Marcio Black, do Instituto de Referência Negra Peregum, comentou alguns dados do estudo e ressaltou o que precisa ser feito para que o Brasil seja um país mais justo e igualitário.

 

MARCIO BLACK é doutor em Ciência Política e coordenador executivo de projetos no Instituto de Referência Negra Peregum. Foi fundador do Coletivo Sistema Negro, grupo ativista que mescla cultura e ação sobre questões antirracistas em São Paulo.

 

Os dados apresentados pelo estudo "Percepções sobre o racismo no Brasil" reforçam os achados de várias pesquisas de abrangência nacional. Quais foram os dados inéditos?

Marcio Black: Quando decidimos fazer essa pesquisa queríamos resgatar a pesquisa histórica do Datafolha, feita há quase 10 anos, que mostrou que quase 60% dos brasileiros concordavam que existia racismo no Brasil. A grande novidade do nosso estudo é que 44% dos brasileiros apontaram que o racismo é o principal gerador de desigualdade no país. Eles não só reconhecem que o racismo existe, como entendem que ele é um fator relevante para a desigualdade. E o número de pessoas que afirma que o Brasil é um país racista aumentou de 60% para 81%. Além disso, 51% afirmaram que já presenciaram situações de racismo. Por outro lado, apenas 11% reconhecem ter práticas racistas ou circular por espaços racistas (escola, trabalho etc.).

Quais foram os dados mais impactantes ou surpreendentes? Por que?

MB: O fato de 81% dos entrevistados concordar que o racismo existe, mas apenas 11% se autodeclararem racista é impactante. Já a aprovação e validação das cotas como política pública foram positivas. Um número relevante de pessoas (51%) concorda que as cotas são importantes. Esse dado nos surpreendeu. E o interessante é que nem todas essas pessoas são progressistas, de esquerda. Tem conservadores, de direita, que reconhecem o racismo estruturante. Esse é um dado muito positivo, porque a agenda racial sempre sofreu muita resistência dos mais conservadores. A aprovação das cotas mostra que essas pessoas acreditam que políticas públicas são importantes para reverter a desigualdade social com base na questão racial.

É importante pontuar também que o grupo que mais reconhece o racismo são mulheres negras de esquerda. E o que menos reconhece são homens brancos, com alta escolaridade e alta renda. Esses são os que mais se opõem ao sistema de cotas: homens brancos, das regiões Sul e Sudeste, de meia idade, com altas escolaridade e renda.

A pesquisa mostrou que as pessoas entendem que existe um Brasil racista, mas sem identificar o racismo em suas próprias condutas. Como vocês interpretam esse dado?

MB: O professor Kabengele Munanga, da USP [Universidade de São Paulo] falava que o racismo é o crime perfeito. Porque ele é um crime sem autor. As pessoas são capazes de reconhecer o racismo estrutural, mas é como se fosse algo que acontece abstratamente. Elas conseguem identificá-lo nas práticas institucionais. Por exemplo, percebem que pessoas negras sofrem mais violência policial do que as pessoas brancas. Mas quando elas trazem para perto de si, elas só conseguem reconhecer o racismo enquanto ofensa, xingamento ou violência. E aí grandes acontecimentos, como o que ocorreu com o [jogador de futebol] Vini Jr. mobilizam a sociedade brasileira e chamam a atenção. Mas as pessoas não reconhecem o racismo no espaço de trabalho, na escola ou no clube, por exemplo, onde só tem pessoas brancas. Elas não conseguem perceber que o fato de não haver pessoas negras ali também é racismo.

Apenas 24% da população sabe o que é ou já ouviu falar de racismo ambiental. Você poderia nos explicar como esse tipo de racismo se manifesta?

MB: A agenda de mudanças climáticas está muito evidente e crescendo no país. E é importante que isso aconteça. Mas enquanto as organizações brancas estão olhando para a Amazônia, e todos os recursos são concentrados nisso, o movimento negro desloca o debate para os racismos ambiental e climático. O racismo ambiental é o fato de que pessoas negras tendem a ocupar os espaços mais precários do território brasileiro.

Com as mudanças climáticas surgiu o racismo climático. As populações que mais sofrem com os efeitos das mudanças climáticas são os negros que ocupam espaços que alagam, onde o ônibus não passa, que ficam sem água e luz, que desabam quando chove muito.

Queríamos entender se o brasileiro tem a mínima compreensão do que é isso, porque o nosso grande desafio é posicionar o debate racial sobre mudanças climáticas. Para os movimentos negros, o mais urgente é que as cidades comecem a se organizar para evitar que vidas sejam perdidas quando há um desabamento ou alagamento, por exemplo.

Dezoito por cento dos entrevistados informou ter sofrido racismo em estabelecimentos comerciais (supermercados, shoppings, lojas de rua, cinemas, restaurantes etc.). O que precisa ser mudado na sociedade para que o racismo nas relações de consumo recue?

MB: O estudo mostrou que 40% das pessoas não têm letramento racial. Hoje, existe uma lei que obriga as escolas a promover esse tipo de educação, mas muitas vezes não acontece e, quando acontece, é insuficiente. Então, temos de olhar para isso, pois o letramento racial ajuda a formar as novas gerações e a reduzir a violência racial dentro das escolas.

Hoje, quando falamos de violência, falamos de dois tipos de reparação: a indenizatória, que é uma indenização paga à pessoa (ou à família) que sofreu violência, como o rapaz que foi morto no supermercado em Porto Alegre [RS]; e a outra é a preventiva. O primeiro passo seria contratar mais pessoas negras para os cargos de direção e chefia, diversificando seus quadros de funcionários, pois quanto mais diversos eles forem, menos violência haverá.

E é sempre importante lembrar que a prática do racismo não é momento para aprendizagem. Porque é comum os policiais dizerem que foi um caso isolado de um colaborador, que não será penalizado porque ele precisa aprender com o seu ato. Desculpa, isso não pode acontecer. Racismo é crime previsto em lei, inafiançável. Não se aprende cometendo um crime. O crime não é justificativa para a aprendizagem, jamais pode ser.

A prevenção é sempre a melhor política. Eu frequento o mesmo supermercado há 10 anos, e os seguranças continuam me seguindo. É preciso ter soluções preventivas para esse tipo de situação. Não entra na minha cabeça que a única forma possível de abordar alguém que talvez tenha furtado alguma coisa seja constrangendo a pessoa publicamente no caixa.

Além disso, as empresas deveriam se aproximar dos movimentos negros, que podem dar suporte, elaborar planos de ação etc.

Casos que ganharam grande repercussão na mídia, como a morte do consumidor negro João Alberto Silveira Freitas no Carrefour de Porto Alegre (RS), em 2020, ajudam a combater o racismo ou apenas o escancaram? O que é preciso fazer para que situações como essa não ocorram mais?

MB: Casos como o do Vini Jr., por exemplo, ajudam a visualizar que o racismo existe. É uma vantagem em relação ao passado, quando não existiam smartphones e redes sociais. Mas é importante reforçar que para cada caso que ganha repercussão nacional, outros 30 estão acontecendo e a gente não está vendo. É assustador um jogador sair do estádio com pessoas o chamando de macaco. Mas se isso acontece numa das maiores ligas de futebol do mundo, imagina na várzea ao lado da sua casa.

Quando um caso aparece na mídia é porque aconteceu com um juiz, um desembargador, alguém conhecido ou que tem força social. Ou quando alguém morre. No mesmo shopping onde uma promotora de Justiça foi impedida de entrar numa grande loja de roupas, outras pessoas devem ter sofrido o mesmo tipo de discriminação em lojas menores.

As empresas têm o papel fundamental de estabelecer políticas de prevenção para evitar o racismo.

No dia a dia das famílias brasileiras, qual o caminho para que o racismo seja combatido?

MB: Em resposta à pergunta "Qual o papel do branco antirracista?", a psicóloga Lia Vainer Schucman responde que é o tamanho que ela tem na sociedade. Uma criança de 5 anos que recebeu letramento racial não vai questionar o cabelo do coleguinha negro e vai defender o amigo que sofreu violência. Cada um vai fazer o que pode. Um gerente de loja pode tomar providências.

Se você é uma pessoa branca e vê um negro sendo abordado de forma violenta, em vez de ligar o celular e ser um espectador, tente intervir. A mulher que sofreu violência num voo não esperava que pessoas brancas iriam ajudá-la. Ela foi retirada do avião e não aconteceu nada. Mas alguém filmou a cena.

Existe o papel das políticas públicas, que são muito importantes, mas os indivíduos também têm o seu papel. Quando o George Floyd foi assassinado nos Estados Unidos e surgiu o movimento Black Lives Matter, os ativistas brancos passaram a criar cordões de segurança entre os policiais e os ativistas negros durante as manifestações, porque eles sabiam que os policiais jamais bateriam em ativistas brancos. Seria um sonho que no Brasil as pessoas brancas deixassem de ser espectadoras e passassem a ser mais ativas contra práticas racistas.

E os pais precisam criar bem os seus filhos em relação à questão racial e não podem esperar que as escolas façam isso, até porque elas são espaços onde o racismo está sendo reproduzido. A escola tem um papel importante, mas o papel central é das famílias.

Mas se considerarmos que boa parte dos pais não se considera racista…

MB: Exatamente. É um ciclo vicioso. A escola não vai conseguir resolver, porque as crianças já chegam lá enviesadas pelas famílias, e as famílias não dão o letramento ideal. Aqui tem um desafio para os movimentos negros, um desafio para as políticas públicas e um desafio para as escolas, que não podem tolerar violência e devem ter mais professores e diretores negros. Além disso, a lei que obriga o ensino da cultura afrodescendente e das religiões de matriz africana tem de ser respeitada. Só 27% dos entrevistados disseram que receberam esse tipo de educação, mas que não foi suficiente. É um ciclo que precisa ser quebrado.

O papel dos movimentos negros é incidir sobre a opinião pública. Hoje, sabemos exatamente quais parafusos precisamos apertar para avançar ainda mais no debate racial no Brasil.

Com base nos resultados do estudo, o que o Instituto de Referência Negra Peregum recomenda que o Estado faça para garantir a equidade entre os cidadãos brasileiros?

MB: A gente entendeu que resolvemos o racismo com políticas públicas. E tivemos ótimas políticas sendo implementadas nos últimos 15 anos, que foram produtos da luta dos movimentos negros, como a política de cotas raciais.

Precisamos de políticas que obriguem as escolas a ensinar a cultura afro-brasileiras e as religiões de matriz africana, mas também de políticas reparatórias. O Brasil precisa reconhecer que foi e segue sendo injusto com as populações negras em relação a políticas de reparação. Nos EUA, ex-proprietários de escravos estão sendo obrigados a devolver dinheiro para o Estado, para que seja direcionado a políticas focadas nas comunidades negras. No podcast Projeto Querino, Tiago Rogero diz que não existe materialidade no Brasil que não seja baseada em sangue negro ou indígena. Não existe nada, um pedaço de madeira, uma pedra, que não tenha sido fundada sobre centenas de milhares de vidas negras e indígenas. E o Estado precisa devolver isso a essas comunidades.

Hoje, os movimentos negros estão num lugar muito maduro e sabem quais são as políticas que precisam induzir para que haja mudanças. Seu papel é pautar e evidenciar essas políticas. Nossa grande reinvindicação atual é a indicação de uma ministra negra para o STF [Supremo Tribunal Federal]. E para isso precisamos da ajuda dos veículos de comunicação e organizações brancos. É por isso que pesquisas como a nossa são importantes, pois ajudam a pautar a opinião pública.

 

Saiba mais

Leia a pesquisa em: https://percepcaosobreracismo.org.br/